quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Palavras de Honra e Sabedoria

 Vocês são sempre muito espertos para se protegerem de coisas que na realidade lhes fariam bem”.


- Aslam


*Apenas contextualizando, Aslam disse isso se referindo às pessoas que criam diversos pretextos e barreiras para se manterem afastadas do divino, da moral e do que é certo, enquanto mergulham, sem nenhuma preocupação, em uma vida materialista, egoísta e focada na satisfação dos desejos. 

Uma frase escrita há mais de 70 anos, mas que não poderia ser mais atual.

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

Contos de Elgalor: Boris Puddlefoot

Você me pergunta por que não posso deixar o Boris sozinho? Imagine o seguinte:

Aparece diante dele um capeta flamejante de olhar malicioso dizendo “Olá, halfling, meu nome é Mephistopheles, mestre da mentira e trapaça, e um dos senhores dos Nove Infernos. Pensei na forma como agi nos últimos milênios, e compreendi que preciso mudar meu comportamento. Mas para limpar meu coração escuro, preciso que você se deite naquele altar negro em forma de cruz invertida. Sim, aquele no meio do pentagrama de ponta cabeça! Por favor, ignore meus cultistas encapuzados carregando adagas curvadas e seus cânticos profanos. Eles são completamente inofensivos, palavra. Você só precisa se deitar ali, e eu poderei ser a boa pessoa que sempre desejei no fundo. Pode me ajudar?

E Boris, ao invés de fazer o que qualquer criatura com um mínimo de bom senso faria (que é sair correndo, e não pular com a espada em cima do capeta), irá responder “Claro, se é por uma boa causa, fico feliz em poder ajudar

Sim, meu marido é um asno. Mas é o ser com o coração mais puro que já existiu em toda Elgalor. E se alguém quiser tocar em um fio de cabelo dele, precisará passar por cima do meu cadáver. Do meu e da legião de heróis que inexplicavelmente sempre aparece no caminho dele se declarando seus defensores”.

- Lily Primrose

 Os deuses de Celéstia sempre foram bastante zelosos em seu auxílio às forças da luz no combate contra o mal. Heironeous e Bahamut ensinando e preparando campeões da justiça e Moradin forjando armas e armaduras feitas especialmente para destruir as criaturas vis que ameaçam seu povo. Yondalla, a Mãe dos Halflings também se comprometeu com essa missão, mas de forma diferente.

Uma vez por geração, Yondalla abençoa um halfling. Quanto mais puro é seu coração, com mais força a benção é conferida. Este halfling especial é conhecido pelos elfos como o “Filho da Luz”, uma alma de grande pureza e humildade que, mesmo sem a intenção ou pretensão, leva luz aos locais mais escuros, e inspira as pessoas a serem a melhor versão de si mesmas. Nos tempos atuais, o halfling agraciado com essa benção é o pequeno Boris Puddlefoot, um simples fazendeiro e cuidador de animais. Boris não tem aptidão alguma para o combate, artes arcanas ou mesmo a finesse necessária para se destacar no ofício de ladino. No entanto, os registros da biblioteca de Bahamut contam que jamais houve um Filho da Luz tão poderoso quanto ele.

Como é comum quando se lida com Filhos da Luz, Boris não decidiu se aventurar por conta própria. Por acaso (para os que acreditam nisso) ou destino, ele estava cuidando de um pônei doente em um pequeno vilarejo por onde um grupo de aventureiros estava passando. Eles precisavam de um guia para chegar em um local específico na região, Boris conhecia o caminho e se dispôs a ajuda-los. Deste dia em diante, o destino dele esteve ligado ao dos aventureiros, e eles, pouco a pouco, desenvolveram grande afeto pelo humilde fazendeiro.

Em situações de combate, como alguns brincam, Boris além de nada ajudar, até atrapalhava, porque é um “camponês a se proteger no meio da carnificina”. A situação é ainda mais grave porque em momentos de perigo, Boris tenta se colocar na frente para que seus amigos não sejam feridos (esse fato por si já gerou situações bastante cômicas). No entanto, todos relevam esses problemas com muita satisfação, por gostar da personalidade afável, humilde e sensata do halfling. Em momentos de descanso, Boris sempre prepara as refeições do grupo, e em sua simplicidade, acaba ajudando todos a resolverem seus mais internos conflitos. Uma coisa interessante que seus companheiros percebem é que Boris é incapaz de sentir medo. Sua mente é tão pura que ele acredita inconscientemente que, no fim, tudo ficará bem, bastando apenas que cada um faça sua parte.

Também como seus companheiros perceberam, Boris não tem controle algum sobre seus poderes. É como se eles surgissem conforme a necessidade. Houve ocasiões em que Boris quase foi espancado por apenas um único goblin, mas que, ao final do mesmo dia, quando o grupo encontrou uma hora de mortos vivos, Boris simplesmente espirrou e uma onda de choque dourada destruiu todos eles. Em outras situações, diabos e demônios simplesmente não conseguiam se aproximar do grupo apenas por conta da presença do halfling. E quando extraplanares mais poderosos conseguiam chegar perto, ao tocar no halfling ou eles eram teletransportados de volta a seu plano de origem ou sentiam uma dor excruciante. Mas não importa o quão incrível ou fantástica fosse a demonstração de poder, Boris sempre terminava agradecendo seus companheiros com admiração, e perguntando como eles haviam feito aquilo. Em certas ocasiões, o toque de Boris foi também capaz de ressuscitar os mortos, remover maldições e recuperar membros perdidos.

Independente de quão poderoso Boris seja quando a situação pede, para o halfling, seu maior valor está em preparar as refeições do grupo e em ouvir seus amigos quando eles precisam falar. Ele realmente que os feitos extraordinários que acontecem a sua volta são obra de Yondalla ou dos Deuses da Luz, que estão, generosamente, atendendo a suas orações noturnas quando ele pede pela segurança de seus amigos, que são “heróis incríveis em uma missão valorosa”.

Talvez, o mais interessante nisso tudo seja o fato de que os aventureiros que acompanham Boris não o fazem para se aproveitar dos poderes do halfling, e nem simplesmente por achar que alguém tão valioso precise ser protegido. Eles o fazem porque, sempre que vislumbram o pequeno halfling, lembram-se de que há luz no mundo, e que vale à pena lutar com todas as forças por ela.

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

A História e Legado (reais) de Galadriel

Saudações, nobres almas!

Com o iminente início da vandalização da Terra-Média e seus amados ícones na série Rings of Power, achei interessante que os mais velhos de nós nos lembrássemos de como realmente era Galadriel, uma das mais importantes personagens criadas por Tolkien. 

Se você que nos lê, no entanto, conhece a personagem apenas pelo o que fora mostrado na trilogia clássica de filmes de O Senhor dos Anéis, recomendo fortemente que assista ao pequeno documentário abaixo, para que possa conhecer a persnagem em toda sua riqueza e profundidade.

Independente do grau de conhecimento que tenhamos sobre a personagem, registro aqui esse pergaminho como uma singela homenagem à mesma, antes que sua imagem seja reduzida nas telas à de uma guerreira genérica sem conteúdo ou personalidade. 

Que todos possamos nos lembrar de lady Galadriel como ela realmente foi idealizada por seu nobre criador.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

A Guerra do Imaginário: A Jornada de Chesterton, Lewis e Tolkien

Saudações, nobres almas!

Sei que não são todos que pensam assim, mas como tenho dito nos últimos meses, estamos diante de um momento muito delicado em nossa história, onde a subversão de valores, massificação do pensamento dentro de um ideal distorcido de politicamente correto e ataque a tudo aquilo que remete a algo genuinamente bom ou ligado a tradições está tomando proporções cada vez maiores e preocupantes.

A própria literatura de fantasia e jogos de RPG, como também debatemos, está no meio desse processo de subversão ideológica, e como consequência disso, temos uma séria alienação pautada na banalização do conceito de mal e destruição de todas as bases morais que procuram passar valores ligados à integridade, honra e até mesmo família. A própria série que a Amazon está produzindo na Terra-Média é um claro atestado dessa inversão de valores e desrespeito com um rico legado.

No documentário A Guerra do Imaginário: A Jornada de Chesterton, Lewis e Tolkien, a equipe do Brasil Paralelo realiza um trabalho de pesquisa bastante interessante mostrando como esses três homens lutaram, cada um com suas próprias armas, para promover o bem e seus ideais em um mundo no qual esses conceitos são cada vez mais hostilizados. No entanto, o que torna esse trabalho realmente interessante não são os três “ velhos paladinos” que o protagonizam, mas sim a forma como tudo o que estamos vivendo hoje começou muito antes do que imaginamos.

Desta forma, para aqueles que apreciam os trabalhos e filosofias de Chesterton, Lewis e Tolkien, para aqueles que desejam entender melhor o momento que estamos vivendo, e principalmente para aqueles que desejam ver como podemos opor a onda de subversão que tomou conta do ocidente e cada vez mais deixa suas marcas em nossas crianças, este é um documentário que eu realmente recomendo. 

Uma excelente contextualização da questão pode ser vista no vídeo contido neste PORTAL, enquanto o trailer oficial, e os primeiros minutos do documentário, podem ser conferidos abaixo:


 

 

Apenas encerrando, uma reflexão do mestre Chesterton:



segunda-feira, 22 de agosto de 2022

One D&D

Saudações, nobres almas!

Após ler sobre as considerações que nossos irmãos Gronark e Denilson fizeram recentemente sobre a iniciativa do One D&D, decidi examinar o projeto mais a fundo, especialmente em respeito por todos os jogadores que frequentam esse blog e que jogam a 5a Edição.

Contextualizando um pouco, One D&D é um projeto composto por diversas fases de playtest que ocorrerão ao longo dos próximos dois anos, para trazer o que seria uma "5a Edição Revisada", compatível com tudo o que foi produzido desde 2014, ao invés de uma 6a Edição. 

A ideia é que a cada novo mês, um novo material de playtest seja disponível para que grupos de jogo possam testar e, depois, oferecer um feedback. A premissa é muito interessante, e em tese, seria capaz de refinar o jogo a ponto de entregar um material final perfeitamente alinhado com as expectativas dos jogadores. Na prática, no entanto, as coisas não funcionam assim, como pudemos constatar com a primeira versão de D&D 5E, que passou por um processo semelhante, mas ainda assim entregou classes bastante desequilibradas ou ruins (como o Beast Master Ranger e as habilidades de vigésimo nível de cada classe, que são absurdamente variantes em termos de poder). Mas ainda assim, a ideia é boa, e merece nossa atenção.

A primeira compilação de regras do playtest é chamada de Character Origins, e como o nome sugere, traz a abordagem atualizada para se lidar com as raças que potencialmente podem aparecer no novo Livro do Jogador. Quem tiver interesse em ver, pode conferir neste PORTAL.

Li o material todo, e para ser justo, farei considerações resumidas, separadas em três partes. Enquanto houver interesse nesses Salões por esse tipo de pergaminho, escreverei uma análise a cada novo material disponível. Como acho sempre importante destacar, essas são minhas opiniões, e todos são livres para concordar e discordar no grau que sentirem mais apropriado. O importante aqui é que ao ler os materiais disponibilizados, cada um tire um tempo para levar suas percepções à Wizards quando o espaço para feedback for liberado.

ASPECTOS MECÂNICOS

Mecanicamente, a construção das raças segue o mesmo padrão trazido no livro Tasha's Cauldron of Everything, no qual o jogador coloca os pontos de habilidade de uma forma mais livre, sem precisar estar "restrito" aos bônus raciais que existem desde os primórdios do D&D. Sou bastante contrário a essa abordagem, mas mecanicamente, ela realmente funciona. A grande diferença aqui, que, admito, faz sentido, é que agora os bônus de habilidade estão associados ao background do personagem. Há, por exemplo, backgrounds que conferem +2 em Sabedoria e +1 em Inteligência, enquanto outros fornecem +2 em Força e +1 em Constituição...

RESPEITO AO LEGADO DO JOGO

Enquanto mecanicamente as modificações pegam algo que funcionava bem e mantêm esses pontos funcionando de forma coesa, o mesmo não pode ser dito em relação ao respeito dos desenvolvedores pelo legado do jogo. No Livro do Jogador de D&D 5E que saiu em 2014, tivemos um excelente capítulo falando sobre as raças clássicas disponíveis. Cada raça era descrita de forma simples, porém completa e interessante, de modo que antigos jogadores percebiam que suas raças favoritas eram tratadas com o devido respeito e novos jogadores poderiam entender, perfeitamente, quais as diferenças culturais entre, por exemplo, elfos e anões. Agora, no entanto, o que temos é uma planificação da cultura de todas as raças, um empobrecimento vergonhoso e panfletagem ideológica em praticamente cada parágrafo.

Para citar alguns exemplos, anões não cantam mais as canções trazendo as proezas em batalha de seus lendários guerreiros, mas sim, histórias de como "os pequenos superaram os grandes". O Pai dos elfos agora é descrito como um ser "fluído" em uma clara alusão a indivíduos sem gênero, e não apenas a raça dos elfos, mas todo seu legado como cultura guerreira, foi severamente comprometida. Quando se mencionam os elfos negros, há um cuidado absurdo para não mencionar que a raça é predominantemente maligna. Indivíduos que deixam o Underdark, como Drizzt, são exaltados, nas não é explicado em momento algum o que há no Undedark ou por que sair de lá é bom. Quando vemos os orcs, vemos Gruumsh, o deus Caótico e Mal e patrono da raça descrito como um grande guerreiro, no melhor estilo nórdico. Os conflitos dos orcs com anões e elfos obviamente não são explorados, mas se deram ao trabalho de citar orcs lutando contra invasores de planos superiores. Chega a ser ridículo o esforço em se encobrir o legado de certas raças com vilões e antagonistas, e a única coisa pior do que isso é a forma como as raças predominantemente boas são privadas de toda sua história. Em termos de descrição das raças, o que temos agora se parece muito com as descrições das raças jogáveis em um MMO ruim. Imagino que o texto será um pouco expandido na versão final, mas independente disso, a essência do mesmo está completamente comprometida.

COMPARAÇÃO ENTRE O MATERIAL ORIGINAL E A NOVA PROPOSTA

Mecanicamente, a nova proposta funciona muito bem, da mesma forma como o original apresentado em 2014. Apesar de minha opinião pessoal de que os modificadores de habilidades devam continuar ajudando a caracterizar mais as raças, colocá-los nos Backgrounds não atrapalha em nada o jogo, e é inegável que faz algum sentido. Neste ponto, a nova abordagem foi bem executada, mesmo eu preferindo a original. No entanto, no que tange à descrição da cultura e legado das raças, o trabalho feito foi abominável; empobreceu décadas de histórias apenas para transformar a criação de personagens em um mero veículo panfletário. Como já mencionei diversas vezes aqui, este ponto não é problema para mestres e jogadores com um mínimo de experiência prévia (basta simplesmente ignorar as descrições dadas e utilizar aquilo que melhor se adequa a seu próprio cenário). Contudo, novos jogadores conhecerão essas raças por aquilo que está escrito nos livros, e com isso, perderão muito do que o jogo realmente representa e pode oferecer.

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Modelos de Orientação e sua importância

Saudações, nobres almas!

Primeiramente, este não é um pergaminho diretamente relacionado à RPG, apesar de poder ser trabalhado em situações de Worldbuilding que lidem com choque de culturas e gerações, especialmente em reinos humanos.

Pouco depois de escrever o pergaminho anterior sobre o dia dos pais, e ler o comentário (infelizmente verdadeiro) do pérfido Gronark sobre a situação atual da instituição da família, uma amiga me encaminhou um texto tratando do assunto, analisando o momento caótico que especialmente nossos jovens estão vivendo e associando isso a dois fatores principais: A ausência dos pais e a escolha de novos modelos de orientação.

De forma geral, o texto faz uma reflexão interessante sobre como o afastamento psicológico e emocional de pais e mães de seus filhos deixou um vácuo, que foi preenchido de uma forma bastante nociva e equivocada. Enquanto tradicionalmente os jovens tinham em seus pais, mães, avôs e avós suas referências e modelos de conduta, de algumas décadas para cá eles passaram a escolher seus pares de mesma idade como referências. Isso trouxe um aumento substancial no sentimento de vazio, ansiedade e insegurança que tem se intensificado conforme o tempo passa e esse novo modelo de referências se torna cada vez mais consolidado. As figuras de referência que antes eram pais, avós e professores passaram a ser adolescentes e youtubers que se comportam como tal. O resultado, como podemos constatar, são jovens e adultos cada vez mais ansiosos, perdidos e dependentes de tratamentos psicológicos e remédios associados.

Seria tolice dizer que o modelo de orientação por pais/professores era perfeito, e que em diversos casos, não trouxe vários problemas e traumas que precisariam depois ser enfrentados e superados. Contudo, o modelo foi substituído por algo muito pior, e as consequências disso podem ser cada vez mais percebidas quando observamos especialmente os jovens.

Caso tenham interesse em ler o texto, ele pode ser acessado por este PORTAL. Um aviso muito importante é que ele foi escrito por um padre e, portanto, possui em alguns trechos alusões teológicas. No entanto, mesmo que se discorde de alguns ou mesmo todos os pontos apresentados referentes à teologia, a questão moral e as consequências desta troca de figuras de referências são pautadas fora do âmbito teológico, e por isso, independente da religião que se tenha, é uma reflexão bastante interessante de ser feita porque ajuda a compreender melhor o momento que vivemos hoje.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Feliz Dia dos Pais

Em algum ponto de nossas jornadas pessoais, passamos por um momento no qual precisamos (estando prontos ou não) nos tornar pilares, protetores, professores e talvez, mais difícil que tudo, exemplos e referências. Ao assumir essa honra e responsabilidade, uma das primeiras coisas que fazemos é tentar dar a nossos protegidos aquilo que não tivemos e, por uma razão ou outra, sentimos falta ao longo de nosso caminho.

No entanto, a maior dádiva que podemos dar é nossa presença, amor e o máximo de sabedoria que possuímos dentro de nós. Nessa verdadeira missão, com frequência seremos forçados além de nossos limites, mas quando cumprimos nosso papel da melhor forma que realmente podemos, percebemos que nos tornamos pessoas muito melhores do que pensamos ser possível. E nisso, damos àqueles que mais amamos algo que nem todo dinheiro, status ou poder no mundo poderia oferecer.

A todos os nobres aventureiros que buscam se tornar homens melhores a cada dia, para que possam assim cuidar melhor daquilo de mais importante e sagrado que nos foi confiado, um feliz Dia dos Pais!

terça-feira, 9 de agosto de 2022

DOTA Dragon's Blood: Uma grata surpresa

Saudações, nobres almas!

Atualmente, tem sido bastante difícil encontrar um filme, série ou animação ocidental em que possamos acompanhar uma história e seus personagens sem "tropeçar" o tempo todo em propaganda ideológica e panfletagem. Na maioria dos casos, a série/filme/história é apenas um meio, um veículo, para se fazer panfletagem e "lacração". Em raríssimas ocasiões, conseguimos encontrar um trabalho que trata a história como um fim, não um meio, e que traz personagens verossímeis que tentam, com erros e acertos, encontrar seu caminho e fazer a coisa certa.

DOTA Dragon's Blood, apesar de simples em termos de enredo, personagens e animação, é uma série que realmente consegue se destacar precisamente pelo fato de ser uma história "pela história", e não um veículo panfletário. A ambientação na qual a história acontece não é muito desenvolvida, mas fornece um pano de fundo adequado para a condução do enredo. Os protagonistas, como mencionei, estão buscando seu caminho e desejam fazer a coisa certa, mas com frequência enfrentam situações que os fazem questionar tanto seus objetivos quanto suas motivações. 

Algo que realmente me chamou a atenção é que pontos como a importância de se pertencer a um grupo, ter uma família e fazer escolhas difíceis é trabalhado com recorrência, e em praticamente todos os personagens principais. Apesar de tudo ocorrer de uma forma um tanto superficial, é interessante de se acompanhar. E como a série veio "de um jogo (Dota) que veio de outro jogo (mods de Warcraft III), os mais atentos (e velhos) podem encontrar diversos elementos do saudoso Warcraft III, como a montaria de uma das protagonistas.

Admito que ainda não terminei de assitir a segunda temporada da série (estou assistindo muito devagar, e a terceira estreará ainda em agosto), mas ao que tudo tem mostrado até aqui, esta é uma daquelas histórias raras de se encontrar hoje em dia, especialmente no gênero de fantasia. Mesmo com suas limitações, Dragon's Blood não é um mero veículo panfletário, mas sim uma saga focada em seus personagens e nas escolhas que estes fazem ao longo de suas jornadas. Esse fato, por si só, já faz com que se valha à pena conferir alguns episódios.

quarta-feira, 27 de julho de 2022

A "evolução" da Fantasia e a inversão de valores com ela trazida

Saudações, nobres almas!

Apesar de não ser um entusiasta das teorias da conspiração, chegaram a mim alguns fatos nos últimos dias que pediram por um pouco de reflexão. Compartilho convosco aqui dois fatos que, isoladamente, parecem apenas reflexo de uma sociedade moralmente vazia e consequência da agenda questionável que tomou o ocidente na última década. Mas quando começamos a ver tudo de uma forma sistêmica, passa a ser difícil não achar que há algo estranho acontecendo.

A ARTE DE D&D: Antes versus Agora

Este foi um vídeo muito interessante compartilhado pelo famigerado Gronark, que realmente vale à pena assistir. Nele, o autor explica como surgiu a base da arte da fantasia, e, por consequência, da arte do próprio D&D. Esta arte, fortalecida pelo talento e experiência de verdadeiros mestres como Easley, Elmore, Caldwell e outros, trazia personagens predominantemente humanos, e mais realistas, diante de situações nas quais seus limites realmente pareciam ser testados. Era possível "sentir" o perigo pairando no ar, e o fato dos personagens, mesmo sentindo medo, enfrentando bravamente algo muito maior do que eles próprios. O clássico clima de O Senhor dos Anéis. 

No entanto, como o autor mostra, esse estilo foi substituído por outro mais caricato, no qual os personagens utilizavam equipamentos irreais e "desafiavam" o perigo de forma absolutamente confiante, por saberem que eram, na verdade, maiores do que aquilo que enfrentavam. Outroa detalhe muito importante aqui é que, ao contrário de outrora, boa parte dos personagens não era mais humanos, elfos ou anões. Estes foram substituídos por criaturas mais fantasiosas, especialmente demônios. A presença de personagens abissais sorrindo e em praticamente todo o lugar, se prestarmos atenção, parecia tentar naturalizar sua presença entre outras raças de fantasia. Interessante notar que isso não foi feito, em momento algum, com seres angelicais. Tanto que no livro do jogador de D&D 5a edição, temos Tieflings, mas não Aasimares.

 
Olhando essa questão isoladamente, poderíamos explicá-la como consequência do empobrecimento da cultura, avanço dos MMOs, etc. No entanto, isso não ocorreu de forma isolada. Um exemplo disso é o que temos abaixo.

A CERIMÔNIA DE ABERTURA DO TÚNEL DE GOTTARD NA SUÍÇA 

* A história é antiga, mas merece ser relembrada.

Apenas contextualizando um pouco, o túnel de Gotthard tem 57 quilômetros de extensão, levou 17 anos para ser construído, e, passando por debaixo dos Alpes Suíços, liga os países do leste e oeste europeus. Foi uma obra caríssima, que teve como principal objetivo encurtar distâncias e unificar mais os países da União Europeia. A obra foi conduzida de forma segura e profissional, e a grande questão que chamou (muita) atenção na época foi a forma como escolheram inaugurar a mesma, que, a partir daquele momento, ligaria toda a Europa. Em que essa ligação seria baseada é que foi e ainda é motivo de discussão.

A cerimônia de abertura, transmitida ao vivo para os países da União Européia e contando com a presença de diversos chefes de estado, foi concebida, sem exageros, como um ritual de invocação demoníaco, com direito a representações de sacrifícios, orgias, um diabo e até mesmo um portal. Detalhe interessante e bastante perturbador é que a cerimônia contou com uma antiga lenda européia sobre a "Ponte do Diabo", história na qual o diabo é enganado pelas pessoas com quem fez o pacto, mas é impedido de se vingar porque uma mulher desenhou uma cruz na pedra principal que sustentava a ponte construída por ele. 

Um detalhe interessante: A "pedra de sustentação" da lenda realmente existia, tinha uma cruz desenhada e, coincidência ou não, passava pelo trajeto do túnel. Curiosamente, essa pedra foi considerada frágil para sustentar a obra, mesmo pesando mais de 200 toneladas, e foi completamente destruída (apesar de ser um marco importante de uma lenda muito antiga, nada dela foi preservada para, por exemplo, ser exposta em um museu).  Na história da lenda, o diabo fora barrado e derrotado, mas na cerimônia, no entanto, a lenda foi completamente alterada, com o diabo sendo invocado, recebendo sacrifícios e saindo vitorioso no final. Obviamente, não há mais menção de cruz alguma.

Achei as imagens da cerimônia um tanto pesadas para postar aqui, mas quem desejar ver, e ainda ler uma análise bem didática da cerimônia, basta entrar neste PORTAL.

Não estou fazendo aqui nenhuma leitura do "fim dos tempos", nem analisando a questão sob pilares metafísicos. No entanto, quando observamos estes e outros processos e acontecimentos que aparentemente não têm relação com um pouco de atenção, começamos a notar padrões. Com isso, vemos que a naturalização e até negação do conceito do mal, a ostracização de instituições e códigos que buscam promover a moral, o materialismo e "valores libertadores" defendidos pela agenda vigente no ocidente são todos fatores interligados. Mesmo deixando de fora qualquer discussão metafísica, é possível ver com cada vez mais clareza o esforço em se destruir uma base moral (que, admito, nunca foi perfeita) e substituí-la por algo decadente e muito pior. Como disse no início do pergaminho, quando refletimos um pouco é muito difícil não achar que há algo errado.

segunda-feira, 18 de julho de 2022

O Senhor dos Anéis: A História de Gil-Galad

"I do earnestly hope that in the assignment of actual speeches to the characters they will be represented as I have presented them: in style and sentiment. I should resent perversion of the characters (and do resent it, so far as it appears in this sketch) even more than the spoiling of the plot and scenery." - J.R.R Tolkien

“But as the theme progressed, it came into the heart of Melkor to interweave matters of his own imagining that were not in accord with the theme of Ilúvatar, for he sought therein to increase the power and glory of the part assigned to himself.” - The Silmarilion by J.R.R. Tolkien.

Saudações, nobres almas!

Na primeira dessas passagens escritas por Tolkien, conseguimos vislumbrar com clareza e pesar como o grande professor se sentiria em relação ao que está sendo feito com seu trabalho. Na segunda, onde está realmente o foco da famigerada produção da Amazon na Terra-Média e para quem ela está sendo feita.

Em poucos meses, a Amazon lançará a série "Rings of Power", na qual, como tem mostrado ostensivamente em seus trailers, irá profanar sem qualquer remorso os personagens, histórias e o próprio mundo criado por Tolkien, retratando uma Terra-Média que nada mais é do que pura panfletagem ideológica. Já pudemos ver a descaracterização severa e subversão de Galadriel e Elrond, mas temo ainda relação aos personagens mais devotos dessa era, como Elendil, Círdan e Gil-Galad, já que este tipo de mentalidade e comprometimento ético estão entre os valores mais aboninados desta agenda.

Por isso, resolvi escrever um pouco sobre alguns destes personagens (e também culturas) para que ficasse registrado em mais um lugar como Tolkien realmente retratou esses importantes componentes de seu universo. Ao mesmo tempo em que seria um trabalho informativo, era também um ato de respeito ao legado do nobre professor. Encurralado pela falta de tempo, procurei outros que fizeram algo parecido, e encontrei um ótimo trabalho desenvolvido pela equipe Nerds of the Rings. Como não conseguirei escrever tudo aquilo que gostaria, minha contribuição neste sentido será divulgar bons registros feitos dentro deste contexto.

Assim, apresento aqui um pouco da história de Gil-Galad, um sábio rei, grande guerreiro e adepto da sabedoria dos Valar. Espero que apreciem, e, independente do que a Amazon fizer, possam se lembrar de como realmente é o personagem.

 
 Para finalizar, a versão original de A Queda de Gil-Galad

Gil-galad was an Elven-king.
Of him the harpers sadly sing;
the last whose realm was fair and free
between the Mountains and the Sea.

His sword was long, his lance was keen.
His shining helm afar was seen;
the countless stars of heaven's field
were mirrored in his silver shield.

But long ago he rode away,
and where he dwelleth none can say;
for into darkness fell his star
in Mordor where the shadows are.