domingo, 18 de setembro de 2016

O Caminho do Paladino

Saudações, nobres heróis!

Há algum tempo, tivemos uma discussão sobre paladinos e seus códigos de ética e conduta. Movido por esta discussão, escrevi a história de Tristan Anaron, um dos maiores paladinos do mundo de Elgalor, como uma forma de contribuir um pouco com o debate.

Como a história ficou um pouco longa (cerca de 4 páginas), dividi a mesma em três partes ao longo deste pergaminho, para facilitar a leitura dos que estiverem interessados. Para ler a história inteira, basta clicar na opção "mais informações" no final da Parte I.

PARTE I
Nasci em uma pequena vila no interior de Eredhon, um local calmo e bastante tranqüilo. Minha mãe era uma herbalista, que com seus conhecimentos, mantinha as pessoas saudáveis e, sempre que necessário, curava os enfermos que surgiam. Meu pai era um cavaleiro veterano da Ordem dos Cavaleiros do Céu, e com sua espada e sangue, ajudava a manter nossas terras seguras e nosso povo a salvo.

Quando eu tinha nove anos, minha mãe foi acometida por uma forte febre enquanto tratava uma estranha doença que havia surgido por conta de uma forasteira que passou um dia em nossa vila e morreu logo em seguida. A doença se alastrou e atingiu quase todas as mulheres da vila, mas minha mãe foi capaz de curar todas elas, e por conta disso, nenhuma criança dali precisou crescer sem mãe. Contudo, ela também estava doente, e não havia mais ervas medicinais ou tempo para conseguir novas. Assim, minha mãe faleceu dois dias depois de curar a última enferma.

Aos meus doze anos, um culto de demonologistas conjurou um terrível demônio e o lançou em um pequeno povoado por motivos desconhecidos. Meu pai e seus homens interceptaram a criatura, mas ela não podia ser derrotada, ao menos não por eles. Assim, ele ordenou a seus homens que organizassem a evacuação da vila e deu sua vida para segurar o demônio até que os clérigos do rei chegassem. Por causa do sacrifício dele, muitas pessoas ali não precisaram crescer sem pai.

Os dons de meu pai e minha mãe permitiram que muitos passassem mais tempo com seus entes queridos, e nenhum de seus grandes feitos passou despercebido. Contudo,  as honras e as belas histórias dos bardos não mudavam o fato de que eu havia perdido meus pais, e ao contrário de tantos, eu precisei crescer sem pai ou mãe. E isto me deixou furioso. Por muito tempo.

Pouco depois da morte de meu pai, passei a morar com a viúva de um de seus melhores amigos, que havia tombado em combate poucos meses antes. Ela era uma mulher bondosa e forte, e para minha sorte, tinha um filho de sete anos que em pouco tempo, se tornaria o irmão que eu nunca havia tido. Passei os próximos quatro anos com eles, e admito, sem nenhuma reserva, que se não fosse o amor e compreensão que ambos me deram naquele período, eu não seria o homem que sou hoje, e provavelmente, teria me afundado em minha dor egoísta.

Egoísta porque, como minha nova família me mostrou, muitos foram os que cresceram sem seus pais, mesmo em Eredhon, o reino mais ordeiro e pacífico de toda Elgalor. Quando ouvia as histórias tristes de minha nova mãe sobre acontecimentos que ela presenciou em outras terras, fiquei ao mesmo tempo envergonhado e horrorizado; havia muito sofrimento no mundo. Muitas pessoas boas e inocentes pagando sem ter culpa nenhuma de nada. Muitos heróis anônimos, como meus pais, que davam suas vidas e sofriam para que outros não precisassem sofrer.

Pouco após meu décimo sexto aniversário, decidi me alistar no exército real. Eu já havia recebido algum treinamento de meu falecido pai, e como nomes e principalmente feitos são extremamente valorizados em Eredhon, eu não teria problema para conseguir uma recomendação, que me permitiria ao menos tentar mostrar meu valor. Meu jovem irmão, Athelstan, aos onze anos de idade, decidiu que se tornaria um clérigo, e dado seu caráter e compaixão, eu sabia que ele um dia seria um dos maiores clérigos que Elgalor jamais vira. Assim, me despedindo de minha nova família, que não apenas me deu abrigo, mas salvou minha alma, rumei para a capital com a espada de meu pai, algumas moedas e um velho cavalo.

Ao longo da viagem, tive um sonho constante com um homem velho, porém altivo, que caminhava pacientemente pelas planícies carregando um cajado e uma gaiola de ferro, que continha doze pequenos canários. Ele olhava para mim de forma séria, e parava frente a uma grande rocha. Como todo habitante de Eredhon, sabia que aquela era a representação mortal de Bahamut, o Senhor do Vento do Norte, e um dos deuses mais cultuados no reino depois de Heironeous, nosso patrono. Obviamente, fiquei fascinado com o sonho, mas o ignorei. O que não sabia, é que teria o mesmo sonho durante os próximos doze dias de viagem.

Contudo, o que mais me chocou foi que, ao chegar perto da capital, passei por uma planície idêntica àquela do sonho. E como se isso não bastasse, deparei com uma grande rocha no meio do caminho. Atônito, comecei a temer que o velho aparecesse do nada, como um fantasma, me atribuindo algum poder e me atribuindo uma importante responsabilidade que mudaria totalmente meu destino, como sempre acontecia nas lendas. Contudo, nada aconteceu de imediato, e como eu não queria “abusar da sorte”, corri para frente e segui meu caminho. Daquele dia em diante, os sonhos pararam completamente.


PARTE II

Cinco anos se passaram. Por ser o único filho de Uther Anaron, fui muito bem recebido quando me apresentei ao comando do exército na capital. Eu não possuía nenhum talento especial ou digno de nota com a espada ou a lança, mas por causa de meu esforço e desejo sincero de fazer algum bem, atingi o posto de soldado relativamente rápido. Além disso, me revelei um bom estrategista, e meus comandantes frequentemente diziam que eu passava calma e confiança aos soldados. Por várias vezes, me foram oferecidas patentes de comando, e com educação, sempre as recusei. Nunca desejei o poder ou a responsabilidade esmagadora que ele impõe sobre os ombros daqueles que o detém. Jamais desejei o fardo da liderança, da responsabilidade de ter a vida de vários irmãos de armas em suas mãos, sabendo que uma má decisão sua poderia culminar na morte de dezenas, centenas ou até milhares de pessoas.

Contudo, minha implacável recusa em assumir grandes responsabilidades nunca se deu por conta de um desejo egoísta de liberdade, traço pelo qual elfos e anões geralmente criticam muito nós, humanos. Eu sempre tive o desejo de servir a uma causa maior. Servir até o fim de meus dias, seguindo comandantes dignos até as profundezas do inferno se necessário fosse. Mas a liderança era uma responsabilidade que eu veementemente me recusava a assumir. Assim, mesmo sem jamais liderar oficialmente um único destacamento, ao final de meu quinto ano no exército real fui condecorado com um posto entre os Cavaleiros do Céu. Contudo, a imagem da grande pedra de cinco anos atrás ocasionalmente me assombrava. Como um lembrete de que eu estava fazendo menos do que podia. Pior, que eu estava fazendo menos que deveria.

Mais quatro anos se passaram, anos em que Eredhon enfrentou uma imensa invasão orc, já que um poderoso bárbaro deste povo uniu mais de dez tribos rivais e, por alguma razão, decidiu que faria seu “reino” em Eredhon. Foram anos tumultuados, que mesmo constantemente me esquivando de posições formais ou informais de comando, não pude escapar da sensação de culpa cada vez que compareceia ao enterro de um colega ou amigo de tropa. Evento que, infelizmente, estava acontecendo com uma freqüência cada vez maior. Porém, o pior ainda estava por vir, e eu aprendi, da pior forma possível, aquilo que os velhos sábios diziam: “Aquele que foge de seus medos, na verdade, está correndo em direção a eles”.

Nosso destacamento precisou se dividir em duas unidades em um período muito curto de tempo para proteger duas cidades distintas que seriam massacradas por hordas de orcs, goblins e ogros. Meu comandante me apontou como capitão do meu destacamento e eu recusei, afirmando que um de meus colegas, Byron Dartaron, por ser mais velho e experiente, deveria assumir a liderança. A contragosto, meu comandante aceitou, e Dartaron aceitou a promoção de bom grado.

Estávamos em sessenta cavaleiros, e a força dos orcs ultrapassava em pouco nosso número. Seria uma batalha difícil, mas se lutássemos bem, obteríamos a vitória. Contudo, logo no início, Dartaron se precipitou e cometeu um erro estratégico potencialmente grave na maneira como ordenou que as tropas avançassem. Os orcs, como guerreiros experientes, perceberam o erro e o exploraram. Dolorosamente.

Em pouco mais de cinco minutos de combate, nossa força foi reduzida a menos de trinta homens, e naquele momento, havia quase dois orcs para cada cavaleiro. Além disso, Dartaron foi abatido pelo líder orc e nossas formações já precárias começavam a desmoronar completamente. Rangi os dentes de ódio ao notar que tudo aquilo era minha culpa. Se eu tivesse aceitado o comando da unidade, as coisas não teriam chegado àquele ponto. Em minha hesitação em assumir o comando e ser responsável pela morte de meus companheiros, ironicamente condenei dois terços de nosso batalhão à morte. E talvez, eu tenha condenado não apenas o restante dos homens que lutavam desesperadamente, mas também todos na cidade que dependiam de nossa proteção.

Enquanto lutava com toda minha força, não apenas contra os orcs, mas contra minha própria culpa, notei que havia criado uma situação que não permitia sequer que eu me sacrificasse pelos demais, como meu pai fez anos atrás, porque não havia um único ser de grande poder a ser atrasado, mas cinqüenta bestas sanguinárias que não parariam por nada. Sem alternativas, continuei lutando, esperando levar comigo o máximo de orcs que pudesse antes de morrer, lembrando que cada um que caísse perante minha espada seria um a menos para chacinar o povo da cidade. Quase que inconscientemente, pedi aos Deuses por ajuda e perdão.

Para minha surpresa, no instante seguinte vi novamente a imagem daquela fatídica pedra em minha mente por uma fração de segundo, e uma mensagem ecoou dentro de mim: “Pare de fugir”. Neste instante, notei que uma lágrima deixou um de meus olhos e senti uma breve, porém intensa paz. Entre um bloqueio com meu escudo e um golpe de minha espada, me acalmei e comecei a gritar ordens aos cavaleiros sobreviventes. Eles se organizaram e acataram meus comandos instantaneamente, e só então pude perceber que desde o início do combate, eles estavam esperando que eu lhes conduzisse naquela maré de sangue, metal e entranhas.

Não me lembro quanto tempo passou, mas o fato é que quando saímos do frenesi da batalha, havia quinze de nós ainda de pé. Os orcs haviam morrido ou debandado, e o que teria sido uma derrota catastrófica tornou-se um pequeno triunfo. Passei o resto do dia ajudando a cuidar dos feridos e dando um enterro digno aos nobres guerreiros que tombaram ali. Passado o perigo, o povo da cidade começou a vir para nos ajudar e nos agradecer, e notei que ver aquelas pessoas bem, especialmente suas crianças, revigorou completamente o coração de todos os soldados que ainda estavam vivos. No fim, aquilo tudo não havia sido em vão.

Cumpridas estas responsabilidades, fiz o relatório ao meu comandante, que apesar de lamentar nossas imensas baixas, se mostrou grato por termos obtido certo êxito. Novamente, ele me ofereceu o posto de capitão, e desta vez, eu aceitei. Não tinha vontade alguma de fazê-lo, e continuava não desejando assumir a liderança de nada. Contudo, quando a necessidade surgisse, eu não viraria mais as costas, porque entendi que, por mais que isto me desagradasse, os Deuses determinaram que liderar era minha forma de servir. Agora, só faltava uma coisa a ser feita.

PARTE III

Após dois dias de viagem a cavalo, voltei àquela pedra, que encontrei há quase dez anos. Desmontei e, ao ver o local, comecei a me lembrar do início de minha jornada, apenas para ser subitamente despertado pelo canto de vários canários, e por uma voz grave e forte.

Estás atrasado, Tristan. Muito atrasado”.

Olhei em direção à voz e notei que o mesmo velho do sonho, vestindo um manto surrado e carregando a gaiola com doze canários, estava a três metros de mim. Seus olhos prateados me fitavam com uma mistura de compreensão e imponência, e me senti como uma criança perto de um adulto severo, mas protetor.

- Peço desculpas. Eu precisava entender algo, e infelizmente, demorei tempo demais para isto. Mas garanto que...

E o que aprendestes?”, ele perguntou me fitando da mesma forma de antes, sem deixar que eu terminasse.

- Que nós podemos fugir de nossos destinos, mas que não devemos fazê-lo. Que, gostemos ou não, há um papel para cada um de nós, e que quando viramos as costas para ele, colocamos os fardos com nossos nomes nos ombros de outros, e isto, cedo ou tarde, trará problemas a todos ao nosso redor.
O velho deu um leve aceno com a cabeça e falou:

O universo pede mais daqueles que podem oferecer mais. Seguir teu destino não lhe trará infelicidade, Tristan Anaron, mas teu fardo, como o de todos os que são escolhidos para levar luz e justiça ao mundo, não será leve. Estais disposto a assumi-lo, a se tornar um de meus paladinos?
- Sim, estou – respondi me apoiando em um só joelho à frente dele.

Um forte clarão se fez, e de uma forma inexplicável, senti que parte da luz do universo estava dentro de mim daquele momento em diante. Compreendi instintivamente que aquela luz, na verdade, sempre esteve ali. Por conseqüência, compreendi também que um de meus deveres era fazer com que outras pessoas, cada uma à sua forma e a seu tempo, encontrassem esta mesma luz dentro de si mesmos.

Assim, me tornei um paladino, e os próximos dez anos de minha vida foram repletos de escolhas difíceis e batalhas terríveis, mas também de algumas poucas, porém imensas alegrias. Apesar de constantemente estar lutando à frente de homens e mulheres que, ao meu ver, muitas vezes eram mais valorosos do que eu jamais serei, encontrei Elenna Aldalen, uma mulher nobre e valente, que me acompanhou durante os momentos mais difíceis de minha vida e que não só me concedeu a honra de ter sua mão como também me deu duas crianças: A pequena Leneth e o jovem Uther.

Apesar de minha fé, não posso negar que quando entro em um campo de batalha, me preocupo que Leneth e Uther possam, por um capricho do destino, precisar crescer sem pai. Isto, contudo, dá forças ao meu espírito para lutar como nunca, porque agora, mais do que em qualquer momento em minha vida, sei que preciso voltar para casa. Que quero voltar. Além disso, sei também que enquanto eu estiver servindo, muitas crianças não precisarão enterrar os próprios pais como eu fiz com os meus. Por isso, nunca deixarei de lutar.


Nunca deixarei de servir.

8 comentários:

  1. Que lindo, Odin. Tristan é um personagem muito querido para mim. Elgalor não seria a mesma sem ele! Adorei a sua narração em primeira pessoa e o conflito do personagem em relação a "assumir o manto" da liderança. Creio que os melhores líderes são aqueles que conhecem o peso de tal responsabilidade...

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    1. Grato, nobre barda, fico feliz que tenhas gostado.

      Realmente, como mestre Tolkien nos ensinou, os melhores líderes são aqueles que conhecem o peso desta responsabilidade.

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  2. Gronark, o Senhor da Dor20 de setembro de 2016 15:19

    Então esse é o novo aspirante a herói. Um leal e estúpido como o Vardalon, ainda por cima é um covarde indeciso que foi escolhido pelo deus capacho do arqui-paladino dos deuses, HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

    Devo admitir que Tristan arrancou alguns aplausos meus, já que esse paladinéco conseguiu distorcer a mente de Elenna, sobrinha do "príncipe" Bheleg. Agora sei da onde vem o ódio pelos humanos que queima dentro do coração do general de Sindhar.

    Bheleg, fique feliz! Tu estás completamente apto para assumir o trono de Alto-Rei. Provou ser tão covarde e incompetente quanto seu idolatrado Thingol ao deixar aqueles que você ama serem corrompidos pelos primitivos humanos, HAHAHAHAHAHAHAHA

    Minha doce Elenna Aldalen, você conseguiu se envergonhar da mesma forma que Cereane, a filha bastardinha do Thingol. Se casar com um humano leal e estupido campeão de um deus tolo, e pior, procriar com ele e ter filhos de sangue sujo aos olhos dos alto-elfos. Espero que você morra em agonia da mesma forma que a bastarda, e saiba que muitos em Sindhar irão se alegrar quando isso acontecer, HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

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    1. Cala-te verme imundo!

      E aproveites para rir enquanto podes. Consultei-me com as Nornes e elas afirmaram que assim como estou fadado a perecer em meu combate contra Fenrir, tu cairás perante a espada de um paladino.

      Não tenho informações de quando isto ocorrerá, mas é fato que tua destruição virá pelas mãos daqueles a quem mais zombas (ou devo dizer, mais temes!)

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  3. Elladan, filho de Elrond21 de setembro de 2016 09:54

    Excelente, Odin

    Fazia muito tempo que não lia uma boa história de paladino, que mostrasse o lado humano destes campeões da justiça de forma verossímil e coerente. O fardo que eles carregam é enorme, e Tristan Anaron é um verdadeiro paladino como poucos.

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    1. Grato, nobre irmão, fico feliz que tenhas gostado!

      Também penso que é pesado o fardo de um paladino, e que poucos são aqueles realmente em condição para carregá-lo.

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  4. Conde Seinrich Von Harstein21 de setembro de 2016 16:23

    Ótima história, lorde Odin. Os contos de fantasia e descrições de cenários são as coisas que eu mais gosto em blogs de RPG.
    Não precisa se preocupar por enquanto, deus ancião. Irei invadir seus domínios somente quando houver mais corpos para reanimar.

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  5. Salve, poderoso conde!

    Contos e descrições de ambientações também me interessam muito, e fico feliz que tenhas apreciado esta história.

    Em breve, asseguro que meus campeões estarão prontos para enfrentar-te no campo de batalha, e encontrarás um desafio a altura do poder de teus exércitos.

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