quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Lidando com níveis dos personagens em um mundo de campanha

Quanto menos heróis poderosos tiver um cenário , mais verossímil ele será.
Saudações, nobres mestres da masmorra!

Ainda relacionado ao tópico de construção de cenários que tivemos no pergaminho anterior, trataremos aqui um ponto muito importante: Como lidar com níveis de personagens.

Em uma ambientação de RPG, a questão dos níveis de personagens importantes no cenário é crucial, porque eles literalmente darão o “tom” do nível geral do mundo. E para que um mundo seja verossímil, é sábio enviar uma aglomeração de personagens muito poderosos acima do 10º nível. Na verdade, quanto menos personagens assim existirem, melhor será, porque do contrário, além dos níveis se tornarem banalizados, as ameaças ao mundo também passam a sofrer o mesmo problema.

Em um mundo com muitos heróis poderosos, criaturas como goblins, orcs, ogros, etc passam a se tornar insignificantes; Se em todo lugar há personagens com níveis de classe, e facilmente se encontra personagens acima do 10º nível, apenas criaturas como dragões e abissais são verdadeiras ameaças, e isto não é bom para um mundo de campanha, porque o mestre terá muita dificuldade em passar um clima de perigo e aventura.

Outro problema: Em um mundo repleto de heróis super-poderosos, até mesmo fatores naturais como frio extremo, calor, tempestades e coisas do gênero perdem a importância. E, como em D&D clérigos poderosos podem ressuscitar os mortos, em mundos povoados de heróis muito experientes até a morte deixa de ser um problema. Assim, não é bom para a verossimilhança do cenário que ele tenha muitos personagens poderosos demais.

Um exemplo simples e prático: Por que o cenário Ravenloft é tão desafiador? Não é porque os Dark Lords são descomunalmente poderosos (a maioria dos heróis que morre lá sequer chegou perto de um deles). O cenário é desafiador porque os heróis no mundo são mais fracos e suscetíveis aos perigos naturais do cenário.

Além disso, uma questão importantíssima é que personagens muito poderosos precisam ter feito muitas coisas relevantes (muitas mesmo). Uma coisa que gostei muito no novo D&D é que agora, como era na época do AD&D, é extremamente difícil adquirir níveis altos. Apenas para dar um exemplo, um personagem que em D&D 3 tinha pontos de experiência para chegar ao nível 21º (um herói épico), em D&D 5 ele teria alcançado “apenas” o 16º nível. Isto torna tudo mais interessante, e mostra como é difícil alguém chegar ao 10º nível, por exemplo. Por isso, o mestre precisa pensar muito bem antes de distribuir experiência aos heróis jogadores e também antes de criar NPCs muito poderosos.

Abaixo, trago-vos uma modesta escala de poder mostrando o quão raro e importante é um personagem conforme seu nível. Para auxiliar a visualização, estou usando como exemplos personagens consagrados de O Senhor dos Anéis/ O Hobbit (obras que todos aqui conhecem).

Nível 1-2 (Pouco Comum): Personagens deste nível são pouco comuns porque têm habilidades naturais ou treinamento especial que poucas pessoas comuns têm. Um personagem assim, se desejar, consegue facilmente se destacar por suas habilidades entre os camponeses de um vilarejo.
Exemplos: Bilbo Bolseiro, cavaleiros de Rohan e os rangers Dunedáin.

Nível 3-4 (Incomum): Estes personagens possuem um talento especial, treinaram muito arduamente ou tiveram um mestre poderoso e bom professor. Quando observados com atenção, percebe-se que estes personagens têm um “ar diferente”. Muitos destes personagens são encontrados como a elite de alguma grande força militar.
Exemplos: Eowyn, Grima Língua de Cobra, Kili, Fili, os cavaleiros de Dol Amroth.

Níveis 5-7 (Raros): Estes personagens já são heróis consagrados, a menos que façam muita força para não serem notados. Experientes e confiantes, eles inspiram muitos outros a os seguirem, e como veteranos, já participaram da realização de vários feitos importantes. Personagens deste nível quase sempre estão em posições de comando.
Exemplos: Boromir, Faramir, Éomer, Dwalin e Balin.

Níveis 8-10 (Muito Raros): Personagens assim são geralmente heróis/vilões extremamente conhecidos, mesmo que tentem se manter no anonimato. Muito experientes, já realizaram muitos feitos grandiosos, e geralmente exercem posições de comando extremamente elevadas, estando à frente até mesmo de reinos inteiros.
Exemplos: Aragorn, Thorin Escudo de Carvalho, Elrond.

Níveis 11-14 (Extremamente Raros): Estes personagens são tão poderosos que dificilmente demonstram todo o poder e influência que têm abertamente. Eles preferem agir como conselheiros ou manipuladores de grandes eventos, e normalmente, só agem diretamente quando há uma emergência muito grande ou catástrofe iminente.
Exemplos: Gandalf (o Cinzento), Radagast, Galadriel.

Níveis 15 – acima (Lendários): Personagens assim são tão poderosos que muitos os consideram um mito; eles agem apenas em caso de extrema necessidade ou ambição, e praticamente nunca ficam próximos a pessoas comuns por muito tempo. Este tipo de personagem, quando se manifesta, chega a atrair verdadeira adoração, quase como se fossem deuses.
Exemplos: Gandalf (o Branco), Saruman, Sauron.

6 comentários:

  1. Pois É:

    Níveis de experiência adicionam pulgas atrás da orelhas das pulgas atrás da minha orelha.

    Não só pelo elemento background mas em relação as mecânicas e suas relações com o cenário. Por isso que no meu futuro projeto os níveis vão deixar de existir. Minhas duas pulgas já estão reclamando de suas pulgas!

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    1. Hahaha, estas pulgas em particular são um problema. Mesmo eu que gosto muito de D&D já cogitei seriamente montar um sistema sem níveis por causa delas...

      Mas com um pouco de controle, elas param de incomodar e podem até ser úteis, contanto que não fiquem muito grandes!

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  2. Salve nobre amigo Odin!

    Ótimo tópico, principalmente para o pessoal que não jogou na época Old School e acham que level é o resultado principal do jogo. Cada level deve ser explorado, mesmo o level 1, para que quando o jogador passe de level, ele se sinta não só importante, como sinta também a real diferença de um level para outro.

    Eu sou mais conservador ainda, mas gostei de suas analogias. Talvez agora o pessoal entenda que level 15 é lendário, ou seja, nem tenta chegar lá que você não vai conseguir (pelo menos em AD&D). Tanto que como falei antes, em AD&D no lvl 9-10, os personagens já atraem seguidores, em muitos casos como do Guerreiro, centenas de seguidores. Logo, ele já tem um castelo (ou está perto disso) para atraí-los. Ladrão tem uma verdadeira guilda com seguidores com level até altos. Ranger tem seguidores sobrenaturais, podendo ter até mesmo grifo como um de seus seguidores, fora Sátiros, hipogrifos e outros que nem lembro agora.

    Resumindo, nesse level 9-10, os personagens já são respeitados até mesmo nos maiores reinos. Afinal, seus seguidores vieram lhe servir devido sua fama, então imagine o que esse personagem já fez... No caso de Guerreiros, são considerados Lordes, e até reis o recebem bem. Paladinos (que já é a classe mais rara por si só, afinal, só de alcançar os atributos de um paladino, já tem que ter sorte nos dados, mostrando sua raridade) não tem seguidores, mas são verdadeiras lendas. Druidas conseguem influenciar toda uma floresta, enquanto os clérigos já estão nos altos cargos de sua igreja. Os magos? Esses (no AD&D pelo menos) não tem seguidores, uma vez um jogador me questionou isso, mas magos desse level tem um poder colossal, consegue destruir um reino sozinho. (No AD&D, para quem não sabe, Magos no início são ridiculamente fracos e depois tornam-se os mais poderosos)

    Enfim, falo sempre isso para meus jogadores depois de um tempo, principalmente quando estão reclamando que ainda estão no level 3. Mostro que level 3 já é uma grande raridade. Para mim, 99% da população é level 0. Logo, level 1 já um guerreiro de uma guarda que se destaca entre os outros por exemplo.

    Certa vez, vi um comentário em um discussão com os caras falando que seus personagens eram level 16. Eu expliquei que em minha campanha, em 4 anos, o mais alto era um ladrão no 11 e o resto level 9-10. Ele falou que jogava há 2 anos, como se fosse muito tempo para chegar ao 16 e me perguntou quanto tempo levaria em minha campanha. Eu falei que nunca sonhei em ver alguém nesse level, até pq teria que jogar uns 20 anos, visto que cada vez fica mais difícil. Sem falar que tem o fator idade, nesse campanha do grupo level 9-10, já tinham se passado uns 10 anos em termos de jogo, então no level 16, provavelmente os personagens já seriam vovôs rsrs

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  3. Salve, nobre irmão!

    Concordo plenamente. contigo. Heróis que alcancem níveis próximos ao 10 já são muito especiais, detentores de grandes feitos. Às vezes, brinco que um bardo poderia passar a vida inteira contando apenas as histórias de um personagem de décimo nível e nunca ficaria sem inspiração, porque há muito (muito) para se contar.

    Também concordo que é extremamente importante que cada nível seja sentido e valorizado, mesmo o primeiro nível. Afinal, não se encontra personagens com níveis de classe em qualquer lugar; apenas por ter uma classe, você já é um indivíduo que se destaca.

    Eu gostava muito da maneira como o AD&D tratava isso com os seguidores; o sistema passava a ideia muito clara de que entre os níveis 8-10 o personagem se tornava algo extremamente importante em um mundo de campanha, e os jogadores que os interpretavam sabiam do tempo e esforço para fazer um personagem chegar vivo a um nível tão elevado. E se não me engano, os magos não conseguiam seguidores porque isso os afastaria de sua busca por poder e conhecimento (afinal, os heróis precisavam dedicar algum tempo/esforço a seus seguidores, ou eles o deixavam).

    O que vejo muito de uns anos para cá é a mania do "level cap", a ideia de que o personagem só fica poderoso de verdade quando atinge o nível máximo permitido. Isso pode ser verdadeiro e até verossímil em um RPG eletrônico, mas no RPG de mesa, não funciona.

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  4. Salve nobre amigo!

    Vc está com toda razão quando diz que um bardo poderia passar a vida contando histórias de um personagem de level 10.

    Nunca parei para pensar nisso que você falou da maneira que o AD&D tratava os personagens de level 9-10 e realmente isso muda tudo. Afinal, quando olhavam seguidores (seja de qual classe for) eles viam o quanto um personagem nesse level era importante e usava como parâmetro. Lembro de quando jogava, a meta dos jogadores não era o level 20 ou nem mesmo o 15, e sim chegar no level para ganhar seguidores (entre 9 e 10) e isso servia de parâmetro de poder, ou seja, quando chegavam nesse level, sabiam que estavam na verdadeira elite de personagens, influenciando diretamente não em uma cidade, mas em todo o cenário de campanha...

    Quanto aos magos, é uma verdade. Mas o mago de meu grupo, deixei com que tivesse um aprendiz level baixo. Mas ainda acho que é mais pelo equilibrio, pq magos de level 9 são absurdamente fortes se usadas as magias com sabedoria, sendo capaz até mesmo, de destruir um reino. Sem falar que poderiam criar um pequeno exércitos de mortos-vivos e outros seres...

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  5. Salve, irmão!

    Sim, na época do AD&D, eu nunca ouvia alguém sequer considerando chegar ao nível 20. Todos se contentavam em chegar ao 9-10 porque o sistema já deixava claro que aqueles personagens eram a "elite da elite". Lembro inclusive que o jogador que interpretava um druida em meu grupo dizia que nunca tinha sonhado em ver seu personagem como arqui-druida (acho que isso ocorria no nível 16).

    Magos que saibam usar suas magias bem quase sempre foram os personagens mais poderosos do jogo. Em D&D 3, na minha opinião o clérigo era mais poderoso, mas magos sempre foram e sempre serão, muito respeitados neste sentido.

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