quarta-feira, 14 de maio de 2014

Escaldos de Midgard: Cahal, o Bárbaro.


Saudações, nobres aventureiros!

Trago-vos aqui um intenso conto de nosso irmão de armas Hermano Kenson, conhecido nestes Salões como o bravo Gaborn Val Orden, narrando um episódio importante na vida do feroz bárbaro Cahal.

Àqueles entre vós que desejarem compartilhar as histórias de vossos saudosos personagens, basta enviar uma mensagem a meus corvos (odin.halls@gmail.com)

Boa leitura. 

“ Através da tundra branca e dos rincões congelados, águias voavam aproveitando o frio vento que descia das montanhas Muralha do Mundo. No centro de um grande vale entre os montes e colinas cobertos de neve, o branco era interrompido por mais de três centenas de tendas improvisadas feitas de pele de gamo. Elas se dispunham em grupos, cada um ao redor de uma fogueira e sempre circundando uma tenda maior, destinada ao chefe de cada uma das onze tribos bárbaras Uthgardt. E no centro do acampamento ficava uma construção de madeira e peles de urso, construída para abrigar todos os bárbaros das tribos. Eles o chamavam de Meadenrot, o “Salão do Hidromel”, e para os bárbaros era um local de reunir o conselho de guerra e um local de celebração, onde a comida e a bebida eram compartilhadas em nome de Uthred, o Pai da Batalha.

A tribo do Alce havia sido a última a chegar, armada com enormes machados de cabo de osso de dragão e liderada por Beoff, um brutamontes de cabelos pretos como carvão, barba desgrenhada e uma cicatriz no canto da boca que marcava seu rosto com um rosnado constante. Pouco mais que um bandido, o imberbe Cahal da Tribo do Lobo pensou, mas preferiu guardar para si mesmo. Seria uma desonra para sua família insultar um grande chefe em sua chegada ao acampamento. Cahal assistiu a marcha vagarosa dos homens sujos e das mulheres duras como ferro que eram liderados por Beoff, assim como havia assistido a marcha de todas as outras tribos, desde os Corvos Negros, com seus arcos de sândalo e suas mulheres de coxas grossas, famosos pelas indiscrições sexuais e temperamento volátil; até a Tribo do Fantasma da Árvore, de armaduras de madeira e folhas presas aos cabelos marrons emplastrados de lama.

Cahal odiava Beoff desde seu décimo terceiro inverno, quando Beoff o espancou após pega-lo com uma de suas filhas. O jovem de cabelos vermelhos ainda sentia o sangue ferver quando pensava no castigo que a linda Beruna recebera. Ela nunca mais foi chamada de linda após aquele dia. E o ódio aumentou ainda mais quando Beoff chegou ao Salão do Hidromel, e seus guerreiros esfarrapados cantaram durante uma hora as glórias de seu líder, diminuindo as outras tribos, mas principalmente a Tribo do Lobo. Era uma afronta a todas as tradições.

O conselho começou durante a hora do crepúsculo e seguiu até a meia noite. Por todo o salão, homens e mulheres brigavam e discutiam, clamando direito sobre os saques do último outono e o direito de cada uma das onze tribos sobre o ouro e produtos que poderiam ser ‘adquiridos’ com os mercadores durante a primavera. Após vinte tonéis de hidromel serem consumidos, havia chegado a hora de assuntos muito mais sérios e Ragnar da Tribo do Lobo gritou pela palavra. Resmungando e xingando, os bárbaros ouviram enquanto o chefe de cabelos e barba vermelha relatava sobre uma milícia orc que estava descendo das Montanhas Espinha do Mundo, com o objetivo de pilhar as terras ermas da Fronteira Selvagem.
As tribos discutiram por três horas até que a decisão de combater o pequeno exército fora tomada. Logo, homens de cada uma das tribos foram designados para participar da força de ataque, e as tradições demandavam que alguém da Tribo do Lobo deveria tomar a vanguarda, a posição de maior honra em uma batalha. O jovem Cahal, com seus quase dois metros de altura e um anseio por glória tão grande quanto, imediatamente tomou a iniciativa de chamar a tarefa para si após falar de seus feitos de força, obedecendo à tradição das onze tribos. Muitos dos chefes assentiram com aprovação, e Cahal exultou com a expectativa de seu primeiro comando. Mas uma risada seca interrompeu seu momento de glória.

Beoff se levantou, com o machado gigantesco em mãos. Soltou um longo arroto e levantou a túnica de pele para urinar sobre as botas de Cahal. Ainda com o pau em mãos ele bradou aos outros homens e mulheres: “A maldita Muralha do Mundo vai derreter antes de eu marchar atrás de um idiota tão verde que mija grama! Só porque fodeu com minha filha vagabunda, não quer dizer que pode ser considerado homem! Eu mesmo já fodi aquela puta sem nariz uma centena de vezes! Isso não me faz melhor do que você para permanecer na vanguarda?” Beoff riu, enquanto outros tantos que permaneciam indecisos até então, eram forçados a concordar com ele, por medo de seu exército de bandidos e estupradores.

O sangue de Cahal ferveu! O maldito Beoff havia zombado de todas as tradições, havia insultado a honra de Cahal e conspurcado a jovem Beruna, uma coitada que nunca poderia arranjar um marido. Em nome de todas as tradições, em nome de toda a honra, Cahal tomou a atitude mais idiota que poderia ter tomado em toda sua vida: desafiou Beoff para uma Souvëngard, uma luta até a morte pelo direito de comandar e pilhar todas as mulheres e riquezas do oponente. Era um desafio vazio, claro, pois Cahal ainda não tinha idade para ter riquezas, mas Beoff, que tinha o dobro da força do menino e o dobro da idade, se adiantou, levantando o machado de cabo de osso de dragão à altura da cabeça, aceitando o desafio.  Ragnar se interpôs, tentando parar essa maluquice, mas não havia nada que pudesse fazer por seu filho. O desafio havia sido aceito.

As mesas e bancos distribuídos por Meadenrot foram virados e tirados do caminho. Um círculo de homens e mulheres foi formado. No centro, os dois combatentes se rodeavam enquanto mulheres mostravam os seios e xingavam, homens gritavam apoiando os combatentes. Apenas quatro homens e duas mulheres gritavam apoio a Cahal. Poucos eram loucos o suficiente para desafiar Beoff, um guerreiro mais do que experimentado em batalha, líder da Tribo do Alce há mais de quinze invernos e famoso por ter matado uma tribo de mulheres guerreiras com as mãos nuas e depois estuprado seus cadáveres, todos sabiam o que acontecia com aqueles que desafiavam Beoff.

A luta não durou mais do que alguns segundos, Cahal não era páreo para a força de Beoff. Quando o jovem tropeçou sobre os próprios pés tentando escapar de um golpe circular com o machado, Beoff levantou a terrível arma manchada com o sangue de mil inimigos, preparando um poderoso golpe. No último instante, Ragnar aparou a lâmina com sua espada. Os dois se encararam, rosnando, e Beoff preparou um segundo golpe, visando agora o líder ruivo da Tribo do Lobo. Ragnar havia interferido com a Souvëngard, ninguém responsabilizaria Beoff pela morte dele. As lâminas se chocaram mais uma vez, mas a força de Beoff era infinitamente maior. A espada saltou das mãos de Ragnar indo para embaixo de um dos bancos do Salão. E um golpe limpo do machado de osso de dragão partiu sua cabeça em duas, espalhando cérebro e sangue sobre a multidão atônita. Foi então que a confusão começou.

Homens e mulheres fugiram pelas portas do salão pisoteando irmãos e filhos, uma velha de peitos murchos foi jogada nua sobre a fogueira central, extinguindo as brasas e lançando a escuridão sobre o Meadenrot. Os gritos foram ouvidos até a aurora, mulheres e crianças foram assassinadas ou violentadas, Beoff teria muitos outros filhos. Mas no meio da bagunça, uma pessoa não foi encontrada, Cahal da Tribo do Lobo. No meio da escuridão, alguém havia carregado o jovem para o lado de fora do salão e o arrastado até a orla da floresta de pinheiros ao sul. Era Beruna, a jovem cujo nariz havia sido arrancado por trepar com um filho de lanças de uma tribo rival. Uma densa nuvem de vapor se formava em frente ao buraco enegrecido em seu rosto todas as vezes que respirava.
Quando acordou, na noite seguinte, Cahal a encontrou de cócoras na neve, um jato de sangue e urina saia de seus órgãos sexuais mutilados. Lágrimas vieram aos olhos do bárbaro. Tudo acontecera por causa das tradições e das leis. As tradições não condenariam o assassinato de seu pai. As leis não condenariam os estupros de Beruna, nem a deformação em seu lindo rosto coberto de sardas. Tudo graças a essas malditas leis e tradições. Naquela noite ele deixou de orar aos deuses, deixou de seguir qualquer lei dos homens, ele não tinha mais casa, não tinha mais família. Tudo que tinha era uma moça deformada para esquentar sua cama e o ódio para esquentar sua alma. Nessa noite ele viu a estrela cadente. Um raio de fogo prateado sangrando pelos céus em direção ao sul.
Um dia ele voltaria, um dia ele traria fogo e aço sobre Beoff e sobre os homens das tribos que o haviam apoiado. Quando voltasse seria com uma coroa ensanguentada e seguindo apenas as próprias leis! Ele voltaria e uniria os clãs sobre sua mão de ferro, e o mundo seria o que ele quisesse que fosse. Ele seria rei! Ele seria a LEI!


E por muitas estradas e muitas sendas Cahal caminhou. Em muitas batalhas lutou, muitos homens matou e muitas mulheres possuiu. Eventualmente, Beruna e Cahal seguiram caminhos separados nesse mundo. E ele nunca mais foi o mesmo.”

Um comentário: