domingo, 12 de janeiro de 2014

Folkvang, o Palácio de Freya (Por God Zamiel)

Saudações, nobres almas!

Compartilho convosco um belo conto produzido por nosso talentoso irmão de armas God Zamiel.

Boa leitura!

“Estávamos os três ali para ser julgados. A gruta era ampla e as escadas em frente talhadas na pedra fria. Trinta e dois degraus ao todo, tive tempo de os contar. No teto a rocha pareceu ganhar a forma de dentes e o seu gotejar de água gelada, um salivar para nos consumir, ou assim pensei. A mente vagueia na demora da espera.
No chão molhado a água encontrava o seu caminho até à saída, onde a queda depois seria mais de mil pés por encosta ingreme. Quanto demorámos para ali chegar, só posso adivinhar, mas o como eu já o vim a aceitar, por muito inacreditável que fosse.
Meu corpo parecia são e saudável, minha ferida mortal havia desaparecido. Nem vi quem segurava a lança que me trespassou por entre tanto caos e aglomerado de braços.
Olhei para trás e ainda as via lá fora, as valkirias que nos trouxeram até aqui. Sua beleza contrastava com um semblante de morte quando a luz lhes tocava de um certo jeito.

Mortos, todos nós à espera do mesmo destino. Do meu lado esquerdo um guerreiro de armadura espessa, com uma espada longa embainhada e segurando um escudo estranho nas minhas terras, retangular e longo invés de circular. Expoles do ocidente com certeza. Seu elmo escondia-lhe o rosto, não sabia dizer se tinha lutado do nosso lado ou não.
Já no meu flanco direito, um homem possante com o dobro da minha idade, coberto por peles. A racha no chão do seu machado posado, chamou-me a atenção. Sua barba espeça escondia-lhe seus traços. Seria preciso muita força para o conseguir brandir como deve ser. Seu nome era Erick barbas longas, chefe em Trondheim, eu conhecia-o.
O que aconteceu a seguir fez sombra a tudo até ali testemunhado. A sua graça ao descer as escadas derrotou qualquer defesa ainda desafiadora dos ali presentes. Seus cabelos longos loiros refletiam o pouco de luz que penetrava aqueles domínios e sua pele esbranquiçada denotava falta de encontro com o Sol. Estavam a admirar a mulher mais linda que alguma vez viram.
 Contemplou os presentes com um sorriso que só podia ser caracterizado como perfeito para quem de melhores adjetivos não conseguia arranjar dentro do seu limitado vocabulário.
- Bem-vindos... – Disse-o na mais doce voz possível, acasalando perfeitamente com a sua imagem. – Eu sou Freya. – As suas palavras se fizeram convidar na mente dos homens sem no entanto serem reveladas verbalmente.
- A Mãe… – proferiu Erick.
Freya era a deusa da beleza, amor e fertilidade. Não admira que nunca tenhamos visto tamanha beleza. Fui o primeiro a baixar a cabeça, exemplo que depressa foi seguido pelos outros ali.
- Por esta altura já devem saber porque aqui estão. Vocês são os caídos em batalha para vir servir os deuses até Ragnarok, o fim de todas as coisas. Observei-os por muito tempo, procuro um campeão para ser o arauto dos meus exércitos. Um de vós será esse campeão.
Os guerreiros partilharam olhares surpreendidos.  
- Com o devido respeito Mãe… – Começou a falar Erick. –  Eu sempre pensei ir parar aos salões de Valhalla encontrar os meus antepassados.
- O que te faz pensar que estão todos lá? - Sua expressão agravou-se.
Foi-me impossível não sentir pequeno perante tamanha energia. De onde vínhamos, expressões como aqueles seriam consideradas insulto, mas essa não foi a intenção divinal e Erick soube o seu lugar.
- Pelo meu acordo com Odin eu recebo metade dos heróis caídos. A tua ignorância… entristece-me.
O pesar de Erick foi tão grande que não conseguiu conter as lágrimas pelo que havia feito.
Cada um apresentaria o seu caso e a deusa Mãe dicidiria qual o mais digno de se sentar ao seu lado. 


O guerreiro da esquerda chamava-se Olafh. Começou e foi muito introspetivo. Não mencionou qualquer parentesco ou fidelidade para ninguém. Realçou a sua coragem por ter participado nos saques durante dez anos e saído triunfante. Congratulou-se com grandes feitos enquanto outros perante semelhantes desafios não haviam conseguido. Apregoava liberdade e domínio de si mesmo. Resumindo… era o melhor e o melhor pelo exemplo.
- Estás a convencer-me dessa coragem ou a ti? Interpôs Freya – Eu ainda vejo fragilidade por detrás dessa armadura espessa. Quem pode dizer que não tremias face ao que outros tiveram de enfrentar?
A armadura de repente ficou demasiado pesada para Olafh suportar. Tornou-se claro que Freya já sabia tudo sobre nós, tanto que nos escolheu aos três para uma decisão final que julgo pesaria sob a nossa apresentação.
Chegou a vez de Erick Barbas longas. Sua abordagem foi bem diferente. Depois de uma breve introdução de si mesmo, virou a sua atenção aos outros candidatos para assim fazer sobressair a sua coragem. Disse termos morto muito menos homens que ele e deplorou a nossa maneira de lutar. Era um verdadeiro nórdico (palavras suas), disse-o tão afincadamente e explicou o porquê, encontrando defeitos baseados apenas naquilo que conhecia sobre nós ou pensava que conhecia. Olafh foi particularmente ridicularizado, “um verdadeiro Nórdico não precisa de tanta lata para se proteger”. Apontou a armadura já no chão. Resumindo, era o melhor porque tinha mais experiencia que nós.
Freya olhou-o profundamente.
- Não sejas tão apressado em julgar os outros quando nem te sabes julgar a ti.  
Foi estranho ver um homem possante como Erick se abater.
A minha vez chegou e eu pausei. 
- Eu não sou especial. – Um sussurro. Vislumbrei a deusa ciente de que podia ter ouvido e voltei a evitar o contacto de seus olhos penetrantes – Eu sou Rhuan e sim matei homens, mas enquanto a minha lâmina os procurava por glória e morte eu temi a deles também.
- Modéstia consegue ser uma virtude, mas erradamente usada pelo mortal que derrotou o grande lobo Hati, devorador da lua, filho de Fanrir, o profetizado a matar Odin.
Senti a estupefação dos outros dois candidatos.
- Eu fugia… – Meus olhos pousaram no chão como se me ajudasse a ver com clareza o que aconteceu. –  Quando Hati afundou-se em loucura ao perder a lua no céu, eu fugi como todos os das aldeias que atacou. Foi sorte e já em desespero que a ultima pedra arremessada da minha funda o atingiu.
- Insegurança… Critico de si mesmo e cego para a sua dimensão, julga-se inferior. Coragem é encontrada pelo medo. Tu não és o melhor. Porque o teu melhor ainda está para vir e no entanto, derrotaste o poderoso Hati. Eu não preciso alguém que me diga que é melhor. Preciso de alguém que tenha vontade de se superar para ser o melhor.
Ela viu algo em mim naquele dia que me fez acreditar de eu ser melhor do que eu pensava ser. E assim de simples nortenho entre fileiras sob o comando de outros eu me tornei o arauto dos exércitos de Freya até Ragnarok.  Até à desforra com Hati.”

2 comentários:

  1. Ao pesquisar sobre a mitologia nórdica para escrever esta short-storie, reparei que a Odin reserva-lhe um destino difícil com o lobo Fanrir.

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  2. Deveras... um destino deveras difícil, mas necessário para que o Novo Ciclo comece...

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