sábado, 2 de março de 2013

Verdadeiros Gigantes Capítulo I: Moradin não nos abandonou (Parte 1)

Pela pena de Jaco Galtran, um dos maiores bardos de nossa era.

Os archotes foram acessos assim que eles chegaram. A sala mostrava sinais da ação predatória do passar dos anos e do desuso, mas tudo aqui ela compensado pelo sentimento de nostalgia que nenhum deles fez questão de tentar disfarçar.

- Lembra-se da última vez que estivemos aqui? Esse lugar era mais imponente que as barbas de Moradin. Acho que até o Rei se sentia pequeno quando entrava aqui. E agora veja o que isto se tornou...


- Tornou-se aquilo que estava destinado a se tornar, e nada mais que isso. Não nego que entrar aqui e ver que nada mais será como antes me dá um nó na garganta, Garren. Mas acho que um lugar que já foi tão grandioso merece mais do que as lamentações de dois velhos saudosistas.

Drunnan se permitiu um sorriso. Alisou a imensa barba amarronzada e passou as mãos pelas cadeiras, mesas e objetos daquele salão. Outrora, um local destinado a reuniões das principais lideranças do clã “Leões de Ferro”. Naquele momento, apenas um aposento abandonado, uma construção decadente que reunia um punhado de memórias.
Garren ajeitou a mochila que teimava em se desequilibrar sobre suas costas. Tinha ali o suficiente para manter-se alimentado, protegido e limpo durante um tempo considerável. Atado ao cinturão, pendia em uma bainha improvisada seu machado, um presente que ele, curiosamente, havia ganhado na primeira vez em que esteve naquele salão. Agora, aquelas paredes que um dia estiveram cheias de armas exibiam apenas um triste vazio.

- Garren, eu acho que nós devíamos sair logo daqui porque olhar para essas paredes e móveis não vão fazer tudo voltar a ser como era.
- Talvez nós devêssemos buscar força no passado.
- Talvez eu devesse te deixar aqui sozinho para que você faça isso, então, bom amigo.
- Não, Drunnan. Fique aqui.

Garren remexeu algumas gavetas de uma das mesas. Ali ficavam cópias desprezadas de registros das guerras passadas e de atas de reuniões ocorridas há décadas. Até documentos contendo acordos de paz, uma prática em desuso nos dias atuais, que datavam de pelo menos cinco séculos atrás podiam ser encontrados. Assim sendo, o que ele buscava certamente estava perdido em meio àqueles empoeirados alfarrábios.
Drunnan sabia que a busca de seu amigo demoraria um pouco e teve que se dar por satisfeito com o fato de o silêncio ter voltado a imperar. Olhou para as muitas esculturas que adornavam paredes. Obra do clã conhecido como “Senhores da Pedra”, capaz de imbuir em seus trabalhos um nível de detalhamento que beirava o sobrenatural. Um olhar desatento poderia levar alguém a pensar que as estátuas dos Reis antigos que lá estavam fossem realmente monarcas petrificados. Era quase possível ver nos soberanos ali representados por esculturas a glória altiva do passado. Talvez fosse realmente necessário buscar força no passado.

- Achei!

Garren já tinha vasculhado várias gavetas e um armário de ferro. O que procurava era o registro de um antigo clérigo que faleceu combatendo gigantes do gelo nas regiões que ficavam a oeste do reino de Darakar. Se os “Leões de Ferro” tivessem sido tão cuidadosos quanto Garren gostaria, aquele documento poderia conter algum detalhe que o levasse até o local do falecimento daquele sacerdote.

- Para um clã que costumava ser taxado de “preocupado apenas com batalhas”, até que os “Leões de Ferro” foram sensatos em terem construído um altar em uma sala de reuniões de guerra... – Drunnan pensou em voz alta, caminhando sobre a parte mais elevada da sala, local que serviu de altar no passado.
- Pois eu preferiria que os “Leões de Ferro” fossem mais preocupados em documentar a história de seus clérigos – disse com rispidez Garren, após atirar em uma gaveta com irritação o papel que acabara de ler.
- Nada de útil?
- Nenhuma informação que possa nos ajudar. Viemos aqui apenas para mostrar um para o outro o quanto somos saudosistas. Viagem perdida.
- Pare com isso, Garren. Você não pode esperar que os “Leões de Ferro” documentem os detalhes da vida e da morte de cada um dos seus clérigos. São centenas, e ninguém poderia fazer isso.
- Os historiadores do “Martelo de Mithral” fazem.

De fato, o clã chamado de “Martelo de Mithral” tinha uma gigantesca biblioteca e um número considerável de clérigos dedicados a documentar a história de todos os seus membros. Ninguém sabia se era lenda, mas comentava-se que todos os milhares de anões que um dia foram sacerdotes tinham os detalhes de sua vida e sua morte gravados nos alfarrábios dos historiadores do “Martelo de Mithral”. 
Drunnan ajeitou a mochila do amigo, que novamente se desequilibrava, pendendo mais para um lado de suas costas. Aproveitou para arrumar a sua, e dar uma última olhada para o imenso salão que em um passado distante foi tão decisivo em sua vida.

- Espero que não deixe seus suprimentos caírem durante a viagem. Não teremos para voltar e procurar o que você perder – Drunnan se permitiu brincar com seu amigo.
- Se os historiadores do “Martelo de Mithral” tivessem sido responsabilizados por cuidar da documentação da vida de todos os clérigos de Moradin, não teríamos que passar por isso.
- Na época, ninguém permitiria isso. Graças a Moradin, hoje todos os clãs são unidos, mas você deve lembrar que já houve tempos em que havia uma certa rivalidade entre o “Martelo de Mithral” e os “Leões de Ferro”.
- Eu lembro bem, Drunnan. Bem, sem a ajuda do mithral, nem do ferro, só resta o aço de nossos machados.
- Concordo. “Pode a chuva alagar a terra, relâmpago ensurdecer a imensidão. Sob o reino da Pedra e Ferro, o que ressoa é o Machado do Trovão”. Viu só, Garren? Acho que também estou ficando saudosista.

O salão foi abandonado. A luz do último archote desapareceu, mas antes que a porta fosse fechada, aquelas paredes esculpidas em pedra bruta ainda puderam ouvir uma última frase.

- Talvez toda a força que realmente precisamos esteja no passado.

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