sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Escaldos de Midgard: Julgamentos Gigantescos (Parte II)

Por Jaco Galtran

"...Todos, exceto três.

Sentado na cadeira mais alta, a barba rala não sendo capaz de disfarçar a austeridade forçada, repousava o Alto-Paladino. Mais do que nome, um homem, ou um cargo, ele era um juiz. Líder máximo na hierarquia do Clero Guerreiro, há muito deixara de ser homem para ser santo; deixara nome, família, títulos de nobreza e terras para ser servo do Deus Tri-Uno.

Era apenas o Alto-Paladino e não precisava ser mais nada.

Metros à frente, degraus abaixo, cabisbaixo, livre, mas com os braços juntos como que presos a alguma algema moral, estava Parrus. Paladino do Clero Guerreiro de cabelos curtos desalinhados, alto, olhos negros, trajando uma túnica de algodão dourada. Normalmente, a vestimenta era encoberta por sua reluzente armadura branca, símbolo do coração puro de um servo do Deus Tri-Uno. Mas, naquele momento, o uso dela não lhe fora permitido.
Na parede à esquerda do Alto Paladino, guardas portando alabardas rodeavam uma criatura algemada que revezava com Parrus o constrangimento de ser o alvo dos olhares acusadores de todos. Aquele ser tinha uma anatomia que respeitava os padrões humanóides: cabeça, tronco e membros nos lugares corretos, olhos de um azul profundo e estatura mediana. Entretanto, trazia no semblante uma estranheza quase que alienígena, uma incômoda sensação de que havia algo errado. Ou pior: que ele era errado. Não usava armas, nem armaduras (ou, se as usava, não as tinha consigo naquele momento), mas os músculos grossos sugeriam força suficiente para que fosse capaz de reagir mesmo desarmado. Mas mantinha-se cabisbaixo.
À direita do Alto Paladino, uma bancada levemente elevada era ocupada por doze cadeiras de bronze com entalhes que lembravam o Deus Tri-Uno. Em cada uma delas, um Presbítero. Os Doze Presbíteros eram, abaixo apenas do Alto-Paladino, os mais prestigiados e elevados membros na hierarquia do Clero Guerreiro. Eram todos paladinos ou sacerdotes vividos, de comprovada sabedoria, que auxiliavam nos julgamentos e nas tomadas de decisões. Usavam túnicas cerimoniais beges com o brasão do Deus Tri-Uno em azul no lado esquerdo do peito. Eles seriam os responsáveis por julgar Parrus.    

- Um passo a frente – a ordem veio do Alto-Paladino e foi prontamente obedecida.

Parrus adiantou-se. Dobrou o joelho direito até tocar o chão e aguardou um dos cerimonialistas trazer-lhe uma espada. A lâmina da arma tinha runas que lembravam símbolos arcaicos do Clero Guerreiro. O acusado teve a arma colocada diante de seus olhos. Pôs a mão esquerda no peito, e a direita sobre a espada. Sua voz se fez ouvir em todo o aposento.

- Juro por esta espada, por este brasão, por esta Ordem e por este deus que direi apenas a verdade. Que, se for a vontade deste tribunal, recaiam sobre meus ombros a dor do castigo e do arrependimento, mas nunca a da mentira. E, tendo estas paredes sem mácula, estes corações sem desonra e esta espada lendária como testemunhas, juro dizer apenas e tão somente a verdade.

O Alto-Paladino gesticulou para que o cerimonialista se retirasse. Parrus levantou-se. Não havia hesitação no semblante de nenhum dos dois. Trocaram olhares e aguardaram a chegada de um outro paladino. Era um dos acusadores. Ao chegar, fez uma mesura profunda e olhou para Parrus. Novamente, sem hesitação.
Após receber e desenrolar um pergaminho, o Alto-Paladino deu início às formalidades. Leu em alta voz tudo que um cerimonial de julgamento exigia, fez uma prece ao Deus Tri-Uno pedindo sabedoria e gesticulou para que os demais presentes se sentassem.

- Parrus! Você é acusado de fornecer abrigo a uma criatura desconhecida sem o consentimento de seus superiores hierárquicos – o Alto-Paladino bradou – O que os acusadores têm a dizer?
- Uma atitude de insubordinação – o acusador virou-se aos Doze Presbíteros – Parrus agiu como se tivesse autonomia para tomar decisões sem consultar ninguém.
- Não achei que fosse necessário pedir permissão para auxiliar alguém em perigo – o réu retrucou.
- Para auxiliar, não. Mas para fornecer abrigo, sim.  Principalmente, por tratar-se de uma criatura de origem desconhecida, alguém que talvez pudesse ser um inimigo magicamente infiltrado.
- Não seja dramático. Se a criatura tivesse más intenções, eu teria percebido isso.
- Além de insubordinado, também agiu de forma irresponsável, colocando em risco a existência do Clero Guerreiro e a integridade física de seus membros.
- Se ele realmente fosse um inimigo, acha que o Clero inteiro não seria capaz de detê-lo?
- O que está em discussão não é o poder do Clero Guerreiro, mas a sua atitude.

O Alto-Paladino pigarreou, fazendo-se ouvido. Acusador e acusado se calaram. Continuou:

- Parrus, você também é acusado de curar essa criatura fazendo uso de itens mágicos e recursos previamente designados para a guerra. O que os acusadores têm a dizer?

Desta vez, o acusador era outro. Posicionado ao lado do colega, olhou calmamente para o Alto-Paladino, para os Doze Presbíteros e para o réu. Engoliu um pouco de saliva, respirou fundo, irritou a todos com sua demora e então começou..."

4 comentários:

  1. Como sempre ótimo! Acho Jaco muito habilidoso em suas descrições, quem dera eu pudesse fazer cenas assim *_*

    Leiam o conto, pessoal, vale a pena!

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  2. Você está sendo modesta, Astreya. Eu li o prólogo do seu livro e está muito bom.

    E quanto ao trabalho do irmão Jaco, como sempre, está perfeito!

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  3. Concordo plenamente contigo, bravo guerreiro! Lady Astreya é uma excelente escritora, e realmente, o trabalho do grande Jaco dispensa comentários!

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  4. Acho que alguém será condenado!

    RPGames Brasil
    http://rpgamesbrasil.blogspot.com/

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