sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Escaldos de Midgard: Profecia

Saudações, bravos guerreiros! Trago-vos aqui um pequeno conto de nosso extremamente talentoso irmão de armas Jaco Galtran. Boa leitura!

“Profecias estúpidas”, gritou Yaros, corda do arco retesada, após perceber que o dragão recém-despertado não podia ser vencido.
Ele era o culpado, e agora tudo que existe deixaria de existir pela sua imprudência. Foram dados todos os avisos, todos os alertas. Mas a inconseqüência típica de um jovem aventureiro cegou-o. Agora era tarde. Milhões morreriam.



Sua culpa. Apenas sua.

***

Junto aos fiéis companheiros Palayn (o mago gago, maluco e careca), Dyyr (bárbaro imenso e descerebrado) e Yanelya (feiticeira exótica e sensual), invadiram o Templo Perdido de Schyardalaranthala. Tinham passado as últimas semanas arquitetando detalhes, aperfeiçoando estratégias, reunindo recursos e ignorando advertências de que “um mal ancestral habitava o local e, se fosse despertado, o mundo seria destruído”. Sacerdotes, bardos, velhos loucos em tavernas sem parede e até anjos em sonhos tentaram dissuadi-los da idéia do ataque àquele templo em ruínas. Todos falharam.

“Bobagens!”, gritava Yaros, frente aos alertas. “Não cheguei onde cheguei, me intimidando diante de profecias”, respondia Yanelya. “Dyyr mata! Dyyr não perdoa!”, o bárbaro respondia quando questionado. “A experiência nos ensina a não acreditar em profecias. Nem em mulheres. Nem em homens-lagarto” Palayn dizia.

Discursos afiados na ponta da língua, lâminas afiadas nas mãos, avançaram. O povo do reino rezou a todos os deuses que conheciam (alguns até inventados) para que tudo não terminasse como já se sabia que terminaria. Contava-se que o Templo Perdido era onde repousavam as almas de guerreiros ancestrais que se sacrificaram para deter um cruel dragão vermelho que aterrorizava a região há séculos. Seriam, de acordo com o que se comentava, os espíritos desses guerreiros que impediam que o dragão voltasse à vida. A profecia dava conta de que, se o templo fosse profanado de alguma forma, o selo que separava o mundo dos mortos do mundo dos vivos seria rompido, fazendo o dragão voltar a vida. Ou qualquer coisa assim. Afinal, Yaros e seus amigos nunca deram importância a essas “crendices idiotas típicas de gente ignorante”. E os quatro continuaram avançando.

Câmara após câmara, sala após sala, desafio após desafio. Nada os detinha, nada os intimidava, nada sugeria que a “profecia estúpida” pudesse se cumprir. Toda a sorte de monstros, inimigos e armadilhas foram sobrepujados. Parecia que a vitória era uma questão de tempo. Logo chegariam ao último aposento do Templo, onde encontrariam tesouros, jóias e artefatos mágicos de poder impensável.

Mas o destino decidiu pregar uma peça neles.

***

Do chão de terra batida levantaram-se grotescas caricaturas de seres humanos. Presos no horrendo hiato que separa a vida e a morte, tinham aparência humanóide, poder de demônios e sede de sangue de feras. Nas faces embrutecidas, cicatrizes profundas, cavidades oculares reluzindo com malévolas luzes vermelhas. Chifres pontudos, lábios salivando ferocidade em meio a dentes bestiais e gritos de desespero.

Os corpos eram um amontoado de carne apodrecida e ensangüentada entrelaçado a ossos gosmentos. Os “pedaços” de carne que faltavam em várias partes do tronco eram preenchidos por pedaços de couro rasgado que um dia mereceram ser chamados de “armaduras”. Nas mãos cheias de dedos faltantes, armas poderosas. Espadas, machados, maças, lanças e muitas outras. Caminhavam lentamente, em morosidade tétrica, arrastando seus pés pelo chão – e perdendo dedos pelo caminho.

Dyyr avançou com o imenso martelo de batalha e golpeou. Partes desencontradas dos cadáveres voavam em todas as direções, mas eram prontamente substituídas. Yanelya lançava mão de poderosas conjurações ofensivas apenas para ver os que caíam derrotados levantarem instantes depois. Palayn balbuciava coisas sem nexo e disparava bolas de fogo a esmo. Uma delas atingiu a ele mesmo, tirando sua vida.

Poucos minutos de confronto foram suficientes para que Yaros entendesse que não havia chance de vitória. Virou-se e tentou fugir. Atravessou longos corredores, escapou de armadilhas, perdeu-se nos trechos labirínticos do local, até conseguir voltar à superfície.
Menos de uma hora depois, enquanto ainda resfolegava, viu o covil explodir. De longe, identificou os corpos de seus colegas sendo devorados pelos zumbis, e estes sendo dizimados pelas chamas da criatura que despertara.

Era o dragão.

***

Retesava a corda e disparava flechas em movimentos ininterruptos, sem resultado. As pessoas corriam. E o dragão cuspia fogo, destruindo cidades, incendiando vidas e sonhos. “Profecias estúpidas”, Yaros esbravejou, ao ver o algoz vir em sua direção.

Aquele seria o fim.

7 comentários:

  1. Um conto um tanto quanto trágico, eu diria. Mas mesmo assim um conto extraordinário =)...

    Me lembra até um grupo de aventureiros ao qual eu acompanhva em minha mocidade.

    Éramos inseparáveis e achávamos sermos invencíveis, até que encontamos um... um...

    Bem... Isso já é uma outra história =D...

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  2. Trágico, mesmo. Mas por isso sempre digo que em toda profecia, há um fundo de verdade que deve ser respeitado!

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  3. Leonardo Viera Andrade20 de agosto de 2011 06:37

    Excelente conto, Jaco!

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  4. Realmente, mais um ótimo trabalho, grande Jaco!

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  5. Muito bom mesmo. Nem todos os finais são felizes.

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