domingo, 13 de junho de 2010

Contos de Asgard 12: Hudorn, o deus da morte



Por Jaco Galtran
Todo o reino de Shytrograr ficou horrorizado com a notícia.

Há meses já existia uma tensão diplomática entre as cidades de Daremadhar e de Drundantahan. Por uma infeliz coincidência, ou por maquinação pérfida do deus da guerra, justamente as duas maiores e mais organizadas militarmente do povo anão.
Tudo tinha começado em uma noite qualquer. O filho do regente de Daremadhar havia sido vítima de uma emboscada covarde. Fora cruelmente assassinado. Embora poucos tenham visto o cadáver, comenta-se que seus olhos teriam sido arrancados. Ao lado do corpo sem vida, uma assinatura de sangue no chão continha o inconfundível brasão da família que rege Drundantahan.
Foram alguns dias de luto, dor e tristeza. Sem forja, sem cerveja e sem cânticos aos deuses. Rostos marejados de lágrimas, corações enfraquecidos pela dor da perda. Dias difíceis mesmo para um povo guerreiro em todos os sentidos.

Até que chegaram os dias de revolta e desejo de vingança.

Um razoável número de guerreiros de Daremadhar marchou rumo a Drundantahan. Atacaram um pequeno forte localizado na fronteira entre as duas cidades. Mataram os três guardas que encontraram lá e incendiaram o lugar.
Espalharam-se rumores de que um novo ataque seria realizado, desta vez objetivando matar a família regente de Drundantahan. Para evitar uma tragédia, o Rei Guldgovahr, soberano de todo reino de Shytrograr, interferiu enviando parte do exército do reino. O pior foi evitado. E o tempo passou.
Os ânimos haviam se acalmado. Para solucionar em definitivo a situação, Sua Majestade marcou uma reunião. Ele, diplomatas da corte, e os líderes das duas cidades. Havia um consenso de que, quando chegasse o dia, o bom-senso falaria mais alto e tudo se resolveria.

Até que o impensável aconteceu.

Na véspera da reunião, quando já começavam as movimentações das lideranças até o local escolhido, o regente de Drundantahan foi brutalmente assassinado. Mais que isso: o próprio rei Guldgovahr também foi morto. Ao lado dos corpos, letras escritas com sangue assumiam a autoria dos crimes: família regente de Daremadhar.

***

- Que minhas barbas queimem no fogo do inferno no dia em que eu precisar de ajuda para jogar uma cidade contra a outra.
- Estou satisfeito, Perokk. Vejo que tudo saiu como você tinha planejado.
- Sim. Com magia ilusória pude me infiltrar entre aqueles que faziam a segurança do rei e do regente. Escrevi com sangue o nome da família real de Daremadhar em um local afastado primeiro. Só depois os matei e joguei seus corpos lá.
- Você fez mais do que eliminar qualquer possibilidade de paz entre as duas cidades. Você assassinou o rei. O trono está vago e os exércitos da capital não são capazes de defendê-lo. Não faltarão lutas, políticas ou não, pelo trono vazio.
- As cidades mais poderosas se enfrentarão até se destruírem. Haverá guerra, morte e destruição em doses fartas. Vamos comemorar – Havia um brilho diferente no olhar de Perokk – Que as legiões do abismo se regozijem. O sangue anão cairá para a glória do Carniceiro.

***

Houve guerra, morte e destruição como previu o sacerdote. O Forte Falgarhohr, lar do odioso grupo de clérigos conhecidos como Inimigos da Vida, estava em festa. Comemoraram cada notícia de chacina, cada possibilidade de paz desperdiçada, cada pequena cidade envolvida no conflito.

Mas a comemoração maior ocorria nos infinitos planos que compunham o inferno. Cada alma que chegava era um doce alimento para o maior – e único vencedor na guerra sem sentido entre anões.

O Carniceiro Impiedoso. Hudorn, o deus da morte.

4 comentários:

  1. Muito bom o conto, principalmente o desfecho. Bela "moral da história".

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  2. Tens razão, amigo Frodo. Apenas a morte e a desgraça se beneficiam da luta entre camaradas. Que guardemos atentamente estes ensinamentos...

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  3. Um triste destino para as famílias anãs... um belo exemplo de como os únicos seres que tiram alguma vantagem em carnificinas e guerras sem sentido são os abutres que as cercam...

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  4. Oyama O flagelo das feras15 de junho de 2010 15:11

    Sem dúvida um conto de muita sabedoria

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