domingo, 30 de maio de 2010

Contos de Asgard 8: Fantasmas do Passado

saudações, bravos aventureiros. Nestes Contos de Asgard trago-vos uma das excelentes histórias presentes em Contos de RPG. Aproveito para lembrar que todos são bem vindos para publucar seus contos nos Salões de Valhalla; basta enviar vosso nobre trabalho para odin.halls@gmail.com

Boa leitura

A neve está caindo e eu estou prestes a matar para ter o que comer. Sei que você ainda está me ouvindo. O frio está congelando meus braços e meu cérebro. Ou eu sempre fui burro. Eu estou conversando com alguém que estou prestes a matar. Mas antes disso, quero que você escute. Quero que saiba o que eu lutei durante anos para que ninguém soubesse.

Eu sou um covarde.

“Não faz tanto tempo assim. Ainda era primavera, ainda não nevava, e eu ainda tinha dignidade. Eu já era um grande covarde e já sabia disso. Mas ninguém mais sabia.
Estávamos em quatro: Ivayl, o monge louco, com seu senso de humor bizarro e seus punhos miraculosos; Dalyannahalla, a elfa guerreira que me disse preferir casar com um devorador de mentes a me dar um beijo; Orhakko, o modestíssimo druida que se auto-intitulava “Senhor dos bosques”, “Mestre máximo da floresta e dos animais”, entre outros títulos que atestavam sua soberania sobre a natureza; e havia eu. Com uma besta pequena e uma adaga enferrujada. Nenhum título pomposo, nem nada que valesse a pena ser mencionado.

Repito que ainda era primavera, porque aquele foi o último dia daquela estação. Aquela região era circundada por um lindo rio chamado “Rio da Eterna Primavera”. Pelo que entendi, havia algo mágico no rio fazendo as estações do ano nunca mudarem naquele lugar. Ou talvez, a região tivesse algo mágico – e o rio não tivesse nada a ver com isso. Mas o povo daquelas vilas era muito burro e acho que nunca pensaram nisso.

Nós quatro estávamos partindo de viagem rumo à capital, quando começou a nevar. Acho que mesmo aquele povo estúpido entendeu que não neva durante a primavera e não quis que nós fossemos embora. Ivayl disse que algo estava errado e propôs que ficássemos. Dalyannahalla disse que odiava frio. Ficou com pena daquele povo e decidiu ficar. Orhakko disse que seria um prazer restaurar a primavera e fazer a natureza se curvar à sua vontade. Ele também quis ficar. Eu protestei porque sabia que aquilo podia significar problemas. Sim, eu já era um covarde naquela época. Mas não queria que ninguém soubesse e acabei aceitando ficar.

Aquele povo cretino pediu que investigássemos o rio. Era ele o responsável pela primavera. Se agora não havia mais primavera, era com o rio que havia algo errado. “Idiotas!”, pensei. Mas estavam certos.
O rio estava agitado demais. Haviam ondas, parecidas com as que têm no mar. E havia também alguma coisa que me dava calafrios. Eu sabia que não era o frio. Mas não queria que ninguém soubesse que eu era um covarde, então fiquei quieto.
Até que apareceram fantasmas. Ou melhor, goblins. Ou pior, fantasmas de goblins. Pareciam imateriais, ou coisa assim. Disparei com minha besta. O virote atravessou um dos goblins como se ele não existisse. Nova tentativa, mesma coisa. Até que os goblins sumiram. E eu me borrei de medo.

Orhakko tentou usar seus poderes sobre a natureza para controlar as águas do rio. Assim poderíamos entrar na água. Sua magia, ou seja lá o que for, não funcionou. Tentou de novo, até suas forças se esgotarem. Não funcionou.
Uma onda violenta trouxe consigo os goblins de novo. Continuei me borrando, porque agora eles estavam se aproximando. E pareciam fantasmas. Outra onda surgiu e eles desapareceram. Dalyannahalla se aproximou da margem, espada em punho. Ivayl começou a rir e a seguiu. Eu apontei minha besta para o rio e fiquei de longe. Ser o cara que atirava a distância tinha essa vantagem. Podia ficar longe do perigo sem parecer covarde. Orhakko também caminhou em direção à margem.

Uma nova onda trouxe os goblins. E nos braços eles traziam corpos. Recuamos. Ou melhor, meus colegas recuaram. Os goblins jogaram cadáveres em direção à margem. Eram mulheres e crianças mortas. Se eles carregaram corpos materiais em seus braços, não podiam ser fantasmas, pensei. Atirei com a besta. O virote atravessou um deles como se ele não existisse. Eram fantasmas. Ou ilusões. Uma nova onda os levou.
Dalyannahalla tentou socorrer as mulheres e crianças, mas já estavam mortos. Uma nova onda surgiu. Eu senti um calafrio. Quando olhamos ao redor... Milhares de cadáveres. E agora, os goblins fantasmas estavam vindo em direção à margem. Atirei meu último virote. Não funcionou.

Corri. Como nunca havia corrido. De longe, vi Dalyannahalla ser morta com uma espada curta trespassando seu corpo. Vi Ivayl ter seu pescoço quebrado. E vi Orhakko ser derrubado nas águas, para, momentos depois, ter seu corpo inerte trazido por um goblin. Corri ainda mais. Abandonei aquele lugar e nunca mais voltei. E não me arrependo. Eu fui um grande covarde.”

Nunca mais voltei àquele lugar. Ouvi dizer que o rio agora se chama “Rio das ondas malditas”. Eu fui um covarde. E agora vou matar você e sua família e roubar seus alimentos. Eu poderia emboscar aventureiros cheios de riqueza e muitos suprimentos. Mas prefiro matar você, sua esposa e seu filho pequeno e roubar o pouco que vocês possuem.
Porque eu sou – e sempre serei – um grande covarde...

7 comentários:

  1. Muito interessante. É sempre bom ver histórias deste tipo, que deviam do lugar-comum do herói que salva o dia.

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  2. Correção: "desviam"

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